Redenção

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“Os que comem bem, dormem bem e têm boas casas acham que se gasta demais em política social”

José “Pepe” Mujica

 ***

Com dificuldade abriu os olhos inchados e a claridade o cegou.

Fechou novamente e pode ver bolinhas pretas no fundo vermelho que era apenas a claridade que passava pelas pálpebras fechadas. O sol a pino o fez calcular que apagara por algumas horas e por um momento seu corpo o fez esquecer a dor.

Apenas por um momento.

Porque foi lembrar que estava ferido? Novamente todo o sofrimento retornava ao seu corpo e a agonia era tanta que sentia suas as forças se esgotando.

“A esperança é o meu guia. É o que me faz viver cada dia e principalmente cada noite. A esperança de que depois que você estiver longe dos meus olhos não será a última vez que olharei para você”.

Uma das frases do filme Coração de Cavaleiro que tantas vezes o divertiu na Sessão da Tarde, em uma época em que era apenas uma criança e não imaginava que um dia seria um bandido.

Bandido.

Ladrão.

Criminoso.

Assassino.

As palavras ecoavam tão fortes em sua cabeça quanto naquele dia em era réu e fora condenado. Ali findaram as esperanças e sonhos da sua vida.

O irmão de sua vitima gritou com a boca cheia transbordando ódio. Os gritos secos eram umidificados pela saliva que respingava em seu rosto tamanha era fúria das palavras.

O dedo em riste ante a sua fronte e o desejo de morte machucavam demais. Talvez igualmente às dores que seu corpo sentia agora.

Manoel sentia-se odiado. E sabia que merecia todo o ódio.

Chorou.

Não pela condenação porque merecia. Mas chorou porque tirou uma vida e destruiu uma família.

Ou melhor, destruiu duas famílias.

Pensou em sua pobre mãe que tanto sofreu quando foi preso e isso também doía demais.

– Me desculpe. Foi um acidente.

Mas o irmão do assassinado não aceitou as desculpas e desejou sofrimento e uma morte dolorosa a Manoel.

E anos depois esse desejo fora atendido.

***

Manoel foi uma criança pobre.

Nunca teve oportunidades e sempre sofreu, mas ainda assim era feliz.

Mal teve infância porque desde cedo teve que trabalhar pra ajudar a mãe que tivera quatro filhos de dois pais diferentes. E é triste saber que nenhum dos pais assumiu ou ajudou na criação dos filhos.

Certamente esses “pais” estariam de boa jogando futebol e bebendo cerveja nos fins de semana, indo aos bailes, jogando sinuca após o expediente e engravidando outras moças ingênuas que cairiam em suas lábias.

Enquanto isso a mãe de Manoel tinha que se transformar em duas pra conseguir algum sustento. Também não tinha orientação ou recursos pra entrar na justiça contra os pais e mesmo se tivesse não o faria por medo de represálias, pois sabia que os homens que a engravidaram eram barra pesada e se vingariam dela e das crianças.

“A justiça não sobe o morro, meu filho”.

Manoel cresceu em uma das favelas mais violentas do Rio de Janeiro e ali teria pouquíssimas chances de conquistar alguns dos seus sonhos de infância.

Queria ser cavaleiro medieval igual ao do seu filme favorito e toda vez que assistia na TV pegava a vassoura e cavalgava pelos becos estreitos tomando cuidado para desviar do esgoto a céu aberto que o fazia lembrar que a vida não é justa.

Cresceu em meio à violência e em suas cavalgadas com a vassoura mais de uma vez desviou de corpos que deixavam poças de um sangue grosso.

Não era como o sangue do churrasquinho mal passado que raramente comia nos fins de semana, mas sim algo pastoso que manchava o chão e por meses marcava o local de um crime.

“Vamos apostar corrida até o lugar onde mataram o Purga?”

Purga era só um adolescente que poderia ter sido artesão, médico, jardineiro, advogado, gari ou até mesmo policial, mas se tornou um aviãozinho do tráfico.

E fica fácil julgar de fora dizendo que ele entrou para o tráfico porque quis, mas somente as pessoas próximas sabiam que Purga precisou de dinheiro para comprar remédios para a mãe, que também foi abandonada pelo pai.

Remédios caros. Muito caros.

E um adolescente com pouco estudo e instrução iria conseguir emprego onde? Foi a algumas entrevistas, mas nem sempre tinha dinheiro para o ônibus e assim chegava atrasado ou todo suado e pouco apresentável para disputar o emprego de forma justa com os outros concorrentes. E, nas vezes que conseguia via suas chances de emprego ruir quando dizia que morava na favela, pois os empregadores o descartavam na hora por acharem que ele seria um ladrão ou algum espião de bandidos interessados em furtar a empresa.

Purga não teve escolhas e assim perdeu os seus sonhos.

Manoel também tinha sonhos e era uma criança feliz mesmo com todas as adversidades.

Mas, também nunca teve oportunidades.

Quando adolescente descia para a praia e sentia na pele escura o preconceito por vir do morro. Doía ver o pessoal desviando o seu caminho simplesmente porque estava sem camisa, de shorts e com o velho chinelo tantas vezes remendado.

Aos poucos foi parando de ir até a praia porque sempre era parado pela policia que algumas vezes batia e o mandava ir embora porque ali não era o seu lugar.

O seu lugar era o morro.

Ali seria apenas estatística e nunca um cavaleiro medieval lutando por justiça.

Mas, sabia que a justiça não era pra pessoas como ele.

E assim tomou outro caminho.

Sabia que era errado, mas…

Foi orientado pelos irmãos mais velhos que os seus “amigos” não eram boa gente, mas ainda assim não ligou e achou que era dono do próprio nariz. Sempre achou que estava tudo sob controle, mas que controle temos sobre algo?

Pensamos ser donos dos nossos passos, mas basta um exagero na bebida para cometermos atos falhos que vão nos atormentar por horas, dias, meses e anos.

Basta um simples vacilo para sacrificarmos nosso destino por toda a vida.

Um segundo mexendo no rádio do carro para trocar de musica seria tempo suficiente para você causar um acidente e ser preso.

Uma simples ação em fúria poderia se tornar uma agressão que nos faria responder a um processo que tiraria a paz, o tempo e até a liberdade.

E se estivesse armado ainda…

E naquele dia Manoel estava armado.

Não era pra disparar, mas ele se assustou com a reação da vítima. Foi um acidente e o seu coração sabia disso.

Mas, cansamos de ver acidentes ceifando vidas.

E acidentes tiram vidas do mesmo jeito que atos pensados.

***

Acordou novamente e nunca sentiu a garganta tão seca.

A boca estava rachada e sangrava.

Tentou engolir, mas não tinha saliva e os movimentos dos músculos de sua garganta fizeram arder a sua traqueia. Sentiu algo raspando como se fosse areia passando por ali e desejou apenas um copo d’água.

Ou misericórdia.

E ela veio em forma de chuva.

Manoel abriu a boca e os lábios sangraram de tão ressecados que estavam. Esperou as gotas que cairiam e rezou imaginando que a chuva apagaria os seus pecados.

Há quanto tempo estava deitado ali no pátio do presídio? Não sabia se eram horas ou dias, pois as dores dilacerantes o faziam delirar e desmaiar. Não sentia suas pernas e tampouco conseguia se mexer.

Só se lembrava de ter sido espancado por muitos. Usaram um pedaço de caibro para destroçar suas costas e uma barra de ferro em sua cabeça o fez cair para não se levantar mais.

Rebelião.

Ouviu alguns helicópteros sobrevoando e filmando o presídio. Lá fora também ouvia alguns gritos de familiares preocupados com seus entes trancafiados nesse lugar que quase nunca regenerava as pessoas. Muito pelo contrário, apenas alguns dias num presídio serviam como curso intensivo do crime.

Manoel viu muitos “ladrões de galinhas” entrando aqui e saindo como grandes bandidos aliados a alguma facção.

O cara entrava porque roubou comida de um mercadinho, mas a convivência com as “celebridades” do crime e a necessidade de se aliar a algum grupo para sobreviver transformavam esse ladrãozinho em um individuo de alta periculosidade.

Manoel jurou à mãe que nunca mais cometeria um crime e por isso não se aliou a nenhuma das duas facções rivais que comandavam a rebelião transformando o presidio em uma guerra fria onde duas frentes buscavam aliados em cada pavilhão.

Como era apartidário a tudo isso, logo Manoel se tornou inimigo dos dois lados.

E assim seria uma das muitas vitimas largadas para agonizar no pátio a céu aberto. O lugar para amontoar cadáveres era estratégico, pois as facções sabiam que os helicópteros e drones sobrevoariam a penitenciaria pra filmar e chocar todos os telespectadores com tamanha selvageria.

Logico que nem todos estariam chocados, porque sempre existe o grupo que acha que bandido bom é bandido morto. Aliás, Manoel pensava que se as pessoas que estão no poder pregam esse tipo de selvageria, logo todos se achariam no direito de apontar os polegares para baixo tal qual no coliseu romano.

Vez ou outra um padre ou um pastor pregava aos detentos na penitenciaria e Manoel acreditava que essas sim eram pessoas dignas da fé cristã, pois entenderam o óbvio que Jesus tentou nos passar: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Manoel não entendia como boa parte das pessoas que se diziam cristãs apoiavam o ódio e eram favoráveis às armas. Pior, alguns defendiam a tortura! Eles sabiam que Jesus foi perseguido e torturado?

E na época de Jesus existiam prostitutas, gays, vagabundos e todo tipo de gente, mas foram os religiosos que o perseguiram.

E infelizmente Jesus seria perseguido novamente na sua volta, porque nunca aprendemos como nossos erros.

Muda-se o alvo, mas a história se repete.

***

Manoel era culpado.

Foi preso em seu primeiro assalto e no desespero e nervosismo sem querer disparou a arma que tirou a vida de Enzo.

Manoel era tão culpado que não fugiu com seus comparsas. Ficou ao lado da sua vitima até chegar a policia e a ambulância, mas infelizmente não conseguiram salvar a vida de Enzo.

Os próprios policiais não acreditaram quando viram o algoz ajudando a vitima e se entregando para ser preso. E meses mais tarde o advogado designado pelo estado também não acreditou quando o seu cliente se recusou a receber suas orientações para amenizar a pena.

Manoel sabia que era culpado e iria pagar a sua conta com a sociedade.

Sabia que nada traria Enzo de volta, mas mesmo assim entregou uma carta para a família da vitima.

Estava repleta de erros de português e com uma letra torta que mais parecia a de uma criança recém alfabetizada. Disse que sentia muito por tudo e que toda noite rezava pela alma de Enzo. Não esperava que o perdoassem, mas só gostaria que soubessem que ele estava muito, mas muito arrependido. E que sofria todos os dias por ter destruído os sonhos de todos eles.

Gostaria de ter feito tudo diferente.

Manoel não nasceu bandido.

Manoel não queria roubar e muito menos matar.

Manoel era uma criança como você foi, só que nasceu negro e pobre. Teve o azar de nascer em uma das comunidades mais violentas e viveu para ter o desprazer de ver os seus sonhos destroçados.

Viveu para sentir na pele o ódio por ser negro e por vir da favela.

Era culpado e pagava por isso, mas quantos inocentes pagavam uma conta indevida?

Ele só queria ter oportunidades e os mesmos direitos que os outros. Assim, certamente não teria escolhido tal caminho.

E não concordava quando diziam que só entra para o crime quem quer, pois cada pessoa é um universo e somente você sabe das suas necessidades e da sua força de vontade (ou falta dela).

Cansou de ver pessoas que não tem a força de vontade de parar com o fast food para emagrecer julgarem aqueles que entram para o crime.

Não aguentava mais ver as pessoas que mesmo estudando em escolas particulares e fazendo cursinhos caros não conseguiam entrar em uma faculdade publica botarem a culpa nas cotas estudantis.

Estava farto de ver as pessoas que não conseguem largar o vicio em remédios, álcool e outras drogas acharem que somente os fracos deixam de estudar para tentar uma vida melhor.

Também conhecia pessoas como o seu pai que abandona os filhos, têm amantes ou batem nas esposas para depois se dizerem a favor da família.

Como ouviu o pastor pregando certa vez: “Quem dentre vós não tiver pecado atire a primeira pedra”.

Porque o mundo era assim.

Todos nós somos pecadores, mas adoramos apontar o dedo para os erros dos outros.

E sempre julgamos que os nossos erros não são tão ruins quanto o do vizinho, não importando o duro caminho que esse outro tenha tomado até aqui.

***

Sentiu um forte cheiro de fumaça que envenenava os seus fracos pulmões.

A chuva já parou e toda a dor que assolava seu corpo cansado o deixava em um estado de torpor.

Não sabia mais o que era real ou delírio, mas incrivelmente se sentia em paz.

Dizem que um filme passa em sua cabeça quando se está próximo do fim, mas Manoel não viu filme algum.

Lembrou-se dos seus irmãos, de Enzo e principalmente da sua mãe.

Esperava encontrar Enzo em breve e dizer o quanto lamentava por tudo.

“A esperança é o meu guia. É o que me faz viver cada dia e principalmente cada noite. A esperança de que depois que você estiver longe dos meus olhos não será a última vez que olharei para você”.

Manoel sabia que a esperança o abandonara e não iria mais viver para ver o rosto de sua mãe.

– Me perdoe, mãe. A senhora não merecia passar por esse sofrimento.

Sempre que acontecia brigas e assassinatos na cadeia ouvia o mesmo bordão: “aqui se faz, aqui se paga”.

Se isso era verdade, Manoel achava que já tinha pagado a sua conta com juros até.

Foi estuprado, espancado e passou fome. Ficou amontoado com dezenas de pessoas em uma cela que comportaria uma dúzia, no máximo.

Nos dias de calor o fedor era insuportável, pois a higiene ali era um luxo. Dormia encolhido e passava boa parte do dia em pé porque não tinha espaço para se sentar com o mínimo de conforto.

Pegava a comida no chão muitas vezes e usava as mãos sujas como talher. E quase sempre sobrava apenas o arroz já que a mistura ia para os chefes das celas.

Por isso tudo e mais um pouco estava sempre doente.

Doente e só.

E essa é uma das piores situações em que podemos nos encontrar.

Foi discriminado por toda a vida e nunca pode ter as coisas que gostaria. Não teve muito tempo para ser criança e sem instrução não pode aprender.

E mesmo sem aprender quase nada, teve que pagar por quase tudo.

O golpe com o caibro em suas costas com certeza o tornou um paraplégico. E a barra de ferro que se chocou contra seu crânio também o deixaria com alguma sequela que carregaria por todo restante da sua vida, se sobrevivesse.

Mas, não iria sobreviver.

Seu corpo estirado no pátio da prisão usou o ultimo estoque de energia.

Manoel buscava redenção e em outra oportunidade faria diferente.

Quem sabe seria até mesmo amigo de Enzo?

Mas, isso seria outro capitulo de uma outra historia de um novo livro que esperava escrever um dia.

Porque o livro da vida de Manoel estava na ultima pagina.

E nos últimos parágrafos só pode pegar o seu cavalinho de madeira feito com uma vassoura velha e cavalgar até um lugar onde poderia se tornar uma pessoa melhor.

Reinaldo da Cunha Yado

Deixe-me ir

deixe-me ir

Seríamos muito mais felizes se soubéssemos curtir exatamente cada momento.

Parece uma constatação do óbvio, mas frequentemente não aproveitamos algum momento por estarmos com a cabeça em outro lugar, seja numa conta atrasada, na festa após essa “saideira” ou ainda quando pensamos na próxima viagem, sendo que nem terminamos a atual.

Por vezes não aproveitamos a energia de um show por nos preocuparmos em filmar uma música. Fazemos vídeos que dificilmente assistiremos novamente e perdemos a energia e toda a vibração única desse momento em que há a interação entre artista e público.

Outras vezes ficamos tão irritados com o café derrubado na mesa pela manhã que terminamos com raiva e reclamando por horas. Ou ainda quando o sempre estressante trânsito nos desconecta da serenidade necessária para vermos as cores reais que se escondem perdidas em meio ao cinza da cidade ou pra perceber o sorriso sincero e agradecido de quem vende um docinho no engarrafamento.

E tantas vezes estamos tão preocupados em ver os comentários e curtidas nas redes sociais que nos desligamos das pessoas que estão ao nosso redor…

Antônio Celso se desligou dos seus pensamentos quando o homem barbudo e com camiseta xadrez ofereceu-lhe uma cerveja:

– É uma IPA. Amarga como a minha vida ultimamente! – e o sorriso amarelo entregou que a piada era uma dura constatação da realidade.

Aceitou de bom grado a cerveja e mal entendeu a generosidade do vizinho de balcão de bar quando olhou a hora no celular e percebeu que já estava ali há cerca de meia hora. O barbudo com visual hipster falou um bocado e ele mal notou, pois sua cabeça estava em outro lugar enquanto seus olhos rolavam o feed das redes sociais. E o barbudo continuava falando:

– IPA, India Pale Ale. Estilo inglês de cerveja feito com mais lúpulo para não estragar durante as viagens de navio até a Índia.

Antônio Celso apenas manteve o copo na boca sem beber e sobre a borda de vidro apenas fitou o hipster. Mesmo sem prestar muita atenção ouviu desabafos do cara sobre a ex-namorada e agora ainda descobriu que ele era um especialista em cerveja artesanal.

– Desculpe se estou falando sem parar, cara. A cerveja é em agradecimento por me ouvir. – o barbudo percebeu o leve incomodo do vizinho de balcão e desceu do alto banquinho.

Antônio Celso olhou novamente o relógio do celular, pois mesmo tendo acabado de verificar, já esquecera a hora. É incrível como nos distraímos com essa coisinha que raramente sai do nosso lado. Abriu o telefone para verificar a hora, mas a notificação o deixou curioso por nutrir a sua sede pela fama virtual: será que curtiram o check in que fiz nessa badalada cervejaria artesanal?

Mas não, era apenas mais uma marcação spam pra divulgar alguma festa. Fechou o celular e viu a camisa xadrez se afastando do balcão.

– Hey! Vamos tomar mais uma! – já que meu encontro ruiu, pensou – Meia hora de atraso sem aviso…

O hipster aceitou o convite, afinal não era o tipo que recusava uma cerveja. Aceitou também porque não queria ir para o apartamento se deitar e ficar pensando com quem estaria a mulher que partilhou absolutamente tudo com ele nos últimos anos. Já teria se esquecido de tudo? Falaria mal ou estava arrependida? Ou será que apenas ria dele com as amigas?

Estava desconcertado demais para ficar sozinho num sábado às nove da noite.

Depressão.

Não achava que estava deprimido, mas apenas que passava por um período de cicatrização. Essa “bad” seria necessária para absorver os acontecidos e planejar os próximos passos.

Mas, sabia que a depressão se tornou algo tão comum hoje em dia que devemos estar atentos e admitir se precisássemos de ajuda. Porque o deprimido também ri, sai e conversa com os amigos. É uma doença com muitas faces e justamente por isso nunca percebemos quando até mesmo alguém próximo está nessa situação.

É algo tão corriqueiro nesse ritmo frenético e de pressão das grandes cidades, mas mesmo assim achamos que nunca teremos que lidar com essa infeliz companhia.

– A propósito, qual seu nome?

– Matheus, com TH. – apertou a mão vigorosamente tal qual um lenhador o faria, sendo condizente com a longa barba e a camisa xadrez de flanela.

– Antônio Celso, prazer. – e olhou o smartwatch brilhando em sua mão esquerda enquanto recebia o vigoroso aperto de mão.

Será que não conseguiria se desligar do mundo online até mesmo num aperto de mão?

Na verdade Antônio Celso detestava as pessoas que cumprimentavam sem olhar nos olhos ou o faziam com má vontade, mas acabou sendo uma dessas nesse momento.

Perdeu a atenção novamente, mas dessa vez para olhar a lousa pintada na parede onde estava a carta de cervejas e alguns desenhos feitos com giz.

– A próxima eu pago! Vamos de NEIPA? É isso?

– Bora! Um frutado porque nem só de amargor se vive. – e sentiu-se um pouco mais animado: não estava sozinho e começava a sentir o álcool deixando-o mais solto e relaxado. Agora sim começava a se parecer com uma noite de sábado!

Matheus é um cara alegre e brincalhão e certamente todos que o conhecem jamais imaginariam que ele estaria no grupo de risco da depressão. Sempre fora muito popular ao ponto que afogar as mágoas num bar com um desconhecido seria algo muito incomum.

Ao menos não era qualquer bar. E que cerveja boa, apesar do preço exorbitante.

– Mas, e aí… Tua companhia não veio? – o barbudo deu uma grande golada na cerveja sentindo o sabor cítrico dos lúpulos americanos enquanto observava o típico mauricinho com camisa social (certamente de alguma grife cara) apenas bebericando e apreciando a bebida.

– Pois é. Esse tinder facilita as coisas. Mas, sei lá. Não conhecemos a pessoa pra saber se ela é do tipo que nos deixa sozinhos num bar.

Matheus apenas concordou. Namorou desde antes dos aplicativos de namoro e o seu orgulho não achava necessário um para arranjar encontros.

– Mas é bom, cara! Facilita as coisas e pelo menos comigo rola pouca ou nenhuma interação. É praticamente físico o negócio. Nada de emocional ou ligar no dia seguinte.

– Muitas vezes é exatamente o que precisamos. Pra esquecer alguém, conhecer gente nova…

– Tirar o atraso!

– Pois é.

Matheus vagou em dezenas de pensamentos acerca do assunto. Em outros tempos essas relações puramente carnais seriam um sacrilégio ou a vergonha da família, mas hoje são parte do cotidiano. Achava normal, mas não conseguiria se adequar a esse tipo de vida. Diferentemente do seu parceiro de cerveja, que aparentemente vivia esse lado Charlie Sheen do seriado Two and a Half Man. Existe esse seriado ainda?

– Mas, deixa eu te falar… Essa vida é legal, mas cansa! – e tirou um cigarro do paletó que estava pendurado no banquinho. – Me acompanha lá fora pra fumar?

                O movimento do bar estava aumentando já que a noite de sábado apenas começava. Ficar em pé na calçada certamente os faria perder o banquinho, mas estavam ali só para beber e isso pouco importaria.

– Como eu ia dizendo, essa vida cansa! Tô chegando aos quarenta anos e o “lado família” começa a coçar. Entende?

Matheus olhou novamente para Antônio Celso analisando melhor a forma como se vestia: sapatênis, calça jeans skinny, camisa social e paletó. Típico executivo que quer ser mais despojado! Essa geração millenials!

– E você com esse visual retrô aí? – Antônio Celso percebeu que Matheus o observava e retrucou na mesma moeda. – Camisa xadrez a lá Pearl Jam, barba comprida e cuidadosamente aparada, calça jeans rasgada e botas de couro. Tá no estilo da cervejaria e eu que sou o diferente aqui, haha.

Segundos de constrangimento atingiu a ambos.

– Trabalha com o quê, Matheus?

– Design gráfico.

– Sabia! – e soltou uma tragada. – Seu visual diz isso!

Estereótipos.

Matheus não poderia reclamar da breve analise feita sobre ele. Acabara de julgar o companheiro da mesma forma. E é incrível como por vezes tomamos parte por achar que tal pessoa pensa diferente de nós apenas por ser de outra “tribo”.

Talvez você com essas roupas de roqueiro pense exatamente igual ao cara que se veste para ir a uma rave. Mas, essa diferença visual e musical certamente os impedirá de trocarem ideias e experiências. Esse pré-conceito sobre as pessoas sempre nos afasta e quase nunca nos aproxima de algo.

– Então, como eu estava falando… Eu nunca fui de namorar, mas agora que estou chegando aos quarenta, sei lá. Quase todos os meus amigos já estão casados, alguns com filhos e eu ainda vivo como na época da faculdade.

E deu mais uma tragada no cigarro enquanto Matheus quase terminava a cerveja com uma grande golada.

– A única diferença é que na época da faculdade eu nunca tinha dinheiro!

– E eu não tinha barba, porque dinheiro continuo não tendo! – e sorriu.

– Rá! Mas aí é que tá! Você trabalha com arte, criatividade e certamente gosta do que faz. Eu já fico estressado no escritório e todo dia é um monte de problema pra resolver! Administrar e cuidar de muita gente na empresa me tira a paz!

Nesse ponto Matheus não tinha do que reclamar. Lógico que sempre existe um ou outro cliente chato, mas adorava o seu trabalho, principalmente por toda a liberdade que a agência lhe proporcionava, como home office, day off após entregar as artes e até mesmo reuniões com a equipe em uma cervejaria. E brincadeira a parte sobre não ter dinheiro, ganhava bem sim, ainda mais depois que virou diretor de arte.

Antônio Celso terminou o cigarro, jogou a bituca no chão e foi prontamente repreendido por um casal próximo. O executivo se desculpou, pegou o resto do cigarro no chão e caminhou até uma lixeira próxima.

Matheus pensou que esse cara era um tosco, mas ao menos reconheceu e consertou o vacilo, o que hoje em dia já é grande coisa.

Antônio Celso estreitou a visão para enxergar a lousa com a carta de cervejas e perguntou se o designer acompanhava em mais uma.

Stout?

Yep! Mas eu pago essa. – e assim Matheus se dirigiu ao balcão para buscar as cervejas escuras. Assim seria mais rápido porque os atendentes do bar já estavam sobrecarregados com o aumento do movimento na casa. E já aproveitaria pra pagar a conta porque essa seria a última cerveja da noite.

Antônio Celso sentiu o celular vibrando no paletó e rapidamente olho a notificação no smartwatch. Viu que era a o seu match do tinder e alegrou-se ao ver que a noite ainda não estava perdida. A moça se desculpou pelo atraso e disse que se ele esperasse mais meia hora ainda poderiam se encontrar. E como recompensa pela paciência ele nem precisaria gastar com o uber, já que ela fazia questão de busca-lo no bar onde se encontrava. Concordou, porque a noite de sábado apenas começava e as cervejas já o deixaram mais solto e relaxado.

Matheus voltou com dois pints de cerveja escura segurando os copos com os dedos sobre a boca para não derramar o precioso liquido.

– Cara, a stout terminou. Mas trouxe duas porters que são bem parecidas.

– É escura também! – e já deu uma golada. – Senti pouca diferença. Se bem que não entendo muito de cerveja artesanal.

– São bem parecidas mesmo. Na verdade a stout é uma espécie de porter mais forte.

– É estilo inglês também, né? Das cervejas escuras me lembro de ter tomado muitas Guinness quando fiz intercâmbio na Irlanda.

– A Guinness é a stout mais famosa do mundo. Aqui no Brasil temos a antiga, barata e famosa Caracu, uma sweet stout.

Deu uma golada sentindo o aroma de café e o gosto de chocolate amargo.

Chocolate amargo que fazia lembrar a sua ex-namorada que adorava aqueles com 70% de cacau porque eram mais saudáveis. “É praticamente uma fruta!” sempre dizia isso para ter menos remorso quando escapava da dieta.

Matheus continuou a falar de cerveja porque adorava o assunto:

– As porters eram cervejas bebidas pelos trabalhadores dos portos em Londres. Aí depois surgiram as stouts e como elas foram ficando diferentes, virou outro estilo.

– Interessante. Não conheço muito de cerveja, apenas um pouco sobre whisky.

Dois mundos bem diferentes separavam os dois. As bebidas, o modo de viver, o tipo de trabalho, as roupas. Se conversassem mais um pouco certamente discordariam de dezenas de assuntos e com quase toda a certeza a conversa tomaria rumos mais ásperos se começassem a falar sobre politica.

– Mas, voltando ao assunto do trabalho… Você trabalha com arte, Matheus! Acho demais isso! Sem contar que todo mundo que trabalha com arte tem uma visão diferente de quase tudo! – Antônio Celso pegou mais um cigarro, mas guardou de volta ao lembrar que tinha um encontro daqui a poucos minutos. – Continuou:

– Na faculdade eu morei em uma republica e um dos caras era musico. Ele percebia sons em qualquer coisa! Sem contar que até uma torneira pingando já era o suficiente pra ele contar o tempo ou as suas divisões. – tomou um gole e continuou – Também tenho um amigo fotógrafo que do nada para, olha para algum lado e já percebe o fundo desfocado entre a copa de uma árvore e o vão de um prédio que daria uma excelente foto.

Fazia sentido para Matheus. Estranho concordar com um cara que aparentemente é o seu oposto.

– Quer ver outro exemplo? Veja aquele desenho na lousa de cerveja.

Matheus viu alguns copos desenhados junto com as bandeiras dos países que representavam os estilos de cerveja.

– Ali no canto, aquele desenho de um passarinho preso na gaiola. Deve ter algum sentido isso aí. Mas, eu não consigo captar nada. Trabalho com números, logo só consigo ver os preços das cervejas e o teor alcoólico de cada pra calcular o quanto preciso gastar pra me embriagar.

– Acho que o pássaro é o símbolo do twitter. E ele preso deve ter alguma ligação com zona sem wifi. Sei lá.

                – Tá vendo! Você já teve uma visão artística do desenho! Eu nunca pensaria nisso. E faz todo sentido!

Sorriram.

– A propósito, Matheus, essa é minha ultima cerveja. Meu esquema da noite respondeu e está vindo me buscar aqui! – e abriu o celular para mostrar uma foto da garota. – Bonita, não?

Matheus viu o celular e concordou sobre a beleza da moça. Desviou os olhos para o lado onde um casal conversava e ria alto sem preocupações. Tomou um grande gole amargo da cerveja escura, ficou pensativo e em silêncio.

– Bom cara, vou pagar a conta e ir andando. Foi um prazer! – cumprimentaram-se e agora o executivo ia ao caixa enquanto o designer ficou ali parado mais um tempo.

– Hey!

Antônio Celso se virou para ouvir o hipster.

– Compre um daqueles chocolates com bastante cacau. As mulheres geralmente adoram chocolate e esse é mais saudável.

– Boa dica! Valeu! – e apontou os dedos indicadores para o barbudo como se dissesse “você é o cara!”.

Matheus se dirigiu até a lousa e parou em frente ao desenho do pássaro na gaiola. Pensou que as pessoas não são felizes presas em relacionamentos, empregos e até mesmo quando vivemos com nossas ideias fechadas na cabeça.

Precisamos nos libertar de tudo o que nos atrasa e também soltar pensamentos que nos incomodam. Devemos curtir exatamente cada momento, aprender com o que já vivemos e planejar alguma coisa no futuro, mas sem se preocupar tanto assim com o amanhã para não nos esquecermos de viver o hoje.

Matheus conversou com o dono da cervejaria que estava apagando o stout da lousa, já que tinha acabado. Apresentou-se como designer, disse que sabia desenhar e pediu para fazer uma pequena alteração no desenho.

– Você sabe desenhar mesmo? Então vá lá! Curto muito essa interação do público com a cervejaria!

Matheus apagou o pássaro e o redesenhou fora da gaiola que agora estava com a portinhola aberta. Fez um balãozinho saindo do bico da ave e desenhou uma nota musical dentro.

Agora ele estava livre, feliz e cantando!

Recebeu um tapinha nas costas do dono da cervejaria que aprovou a arte. É tão bom quando um cliente aprova o trabalho de primeira sem precisar refazer nada!

Matheus ficou mais uns instantes olhando o desenho. Pensou no amor, pois quando verdadeiro é eterno.

Um relacionamento não dura pra sempre, mas o carinho e a gratidão devem durar. O respeito deve permanecer e todas as coisas que aprendemos com as pessoas são uma forma de tê-las sempre junto a nós, mesmo que atualmente estejam separadas.

E as lembranças boas sempre nos arrancarão um sorriso!

O verdadeiro amor é deixar as pessoas seguirem o seu caminho!

Pegou o celular, colocou os fones de ouvido, abriu o spotify e selecionou a música “Preciso me encontrar” do sambista Cartola.

(https://open.spotify.com/track/1op7nM2R2M6FAU6dSCTRWV).

Foi embora prestando atenção à letra que falava sobre ver o sol nascer, as aguas dos rios correr e também sobre ouvir os pássaros cantar. Olhou mais uma vez para o pássaro na lousa.

Rir pra não chorar! – entoou o refrão.

E nessa noite não choraria.

***

Antônio Celso entrou no carro da moça e viu que ela realmente era bonita! Nada de filtros e correções nas fotos das redes sociais!

Olhou para a cervejaria e notou que se esqueceu de pegar o contato de Matheus para tomar outra cerveja dia desses. Enfim, o acaso os uniu uma vez, quem sabe não faria de novo.

Ao pensar em Matheus se lembrou do chocolate:

– Te trouxe um presente! – e entregou o chocolate com 70% de cacau para a moça. – é chocolate e é saudável!

A moça sorriu contente com o mimo:

– É praticamente uma fruta!

Reinaldo da Cunha Yado

O mar (350 dias) – parte 2

mar (350 dias) 2

Quantas vezes você magoa alguém, comete algum erro gigantesco no trabalho ou ainda se arrepende de ter feito algo e depois fica esperando por uma chance para consertar?

E quando essa chance aparece você fica sem saber de fato o que fazer. Parece que você ensaia mentalmente todos os passos, mas na hora H fica sem o norte e muitas vezes termina por ser omisso ou ainda por repetir exatamente os mesmos erros.

Aloisio Inácio se sentia exatamente dessa forma ao reencontrar Tomás.

– Por que demorou quase um ano para me buscar, Aloisio?

Aloisio Inácio ainda tentava ver o rosto do amigo por trás da barba e cabelo. Estava em choque e estático.

– Você não tentou voltar o barco naquele dia! Eu teria nadado até perto pra vocês jogarem uma corda…

– Não teria como voltar, Tomás! Você sabe disso! Todos nós teríamos morrido com isso!

As lágrimas de alívio, remorso e dor reencontraram os olhos de Aloisio Inácio.

– Mas somente eu morri.

O pescador olhou para o mar e pensou se estava dentro de mais um pesadelo ou se aquilo seria alguma alucinação quando um tapa no rosto o fez voltar ao barco.

– Eu morri, Aloisio? Estou morto há um ano e agora voltei pra te levar junto comigo?
É isso que você acha que está acontecendo?

– Eu não sei! – o choro já tinha se transformado em prantos.

O pescador fora atormentado pelo abandono de Tomás e desde então sua vida ruiu como se tivessem tirado a peça base de um castelo de cartas. Aloisio Inácio esperava reencontrar Tomás em outra vida e pedir desculpas para somente assim conseguir seguir novamente em paz consigo mesmo. Ou ainda queria poder voltar no tempo para evitar que Tomás caísse do barco. Ou talvez tentasse voltar o barco na tempestade, mesmo sabendo que com isso ele e os outros dois pescadores certamente naufragariam.

Tomás mordeu o pão embolorado e o barulho do “croc croc” da casca dura em contato com seus dentes fez tudo parecer muito real para Aloisio.

– Perdi a maioria dos dentes e os que ainda me restam doem. Fique um ano sem escová-los e você saberá do que eu digo, Aloisio. – e sorriu.

O pescador reconheceu o sorriso do amigo que sempre estava calmo e raramente perdia o autocontrole. Tomás era tão centrado que Aloisio imaginou-o calmo mesmo tentando sobreviver na tempestade.

– Eu ainda não sei se acredito se você é real. Se isso é real… aliás, não sei de nada.

Em meio a tantas duvidas os dois beberam um pouco da agua do galão e observavam o mar. As costas de Aloisio estavam na lateral de um lado e as de Tomás no outro e isso os deixava frente a frente.

– Como você sobreviveu naquela tempestade? Era praticamente impossível mesmo para um homem do mar como você!

Tomás apenas cutucava um dente com os dedos balançando exatamente igual a uma criança prestes a perder um dente de leite.

– E você disse que ficou todo esse tempo numa ilha? A marinha mandou uma equipe de busca atrás de você, mas não encontraram nada!

Tomás permanecia dentro do seu mundo, mal prestando atenção nas perguntas de Aloisio:

– Esse meu dente irá cair logo.

Aloisio olhou incrédulo para o amigo desligado:

– Me responda!

Mas Tomás arrancou o dente e o jogou ao mar:

– Me traga um dente novo, maré!

Aloisio já não sabia se ele estava delirando ou se o amigo tinha ficado louco nesse ano como um náufrago. Mas o pescador precisava desabafar um pouco sobre tudo o que o atormentava desde aquele dia.

– Naquela noite eu demorei muito pra contar até trezentos e cinquenta, Tomás! – Aloisio baixou a cabeça e continuou – Porque eu sabia que trezentos e cinquenta segundos era o tempo que eu conseguia prender a respiração! Outras pessoas não conseguem nem chegar perto desse número, mas nós que estamos acostumados a mergulhar conseguimos sim!

E apenas a imensidão azul do oceano era testemunha da conversa dos dois pescadores.

– Eu contei até trezentos e dai em diante comecei a contar trezentos e um vírgula um, trezentos e um vírgula dois, trezentos e um vírgula três… Fiz isso porque tinha medo de chegar até trezentos e cinquenta porque sabia que esse numero seria a hora em que você não aguentaria mais prender a respiração.

Tomás seguia de cabeça baixa e começou a rasgar o farrapo que era a sua bermuda.

– Todos me disseram que eu fiz o certo em não tentar virar o barco. Seria uma tragédia maior com o mar naquelas condições! Eu choro todas as noites e me culpo por tê-lo abandonado mesmo com todos me dizendo que eu fiz o certo!

O pescador parou de falar por alguns instantes e apenas observou o amigo sobrevivente que estava no barco como se nada tivesse acontecido. Parecia um alienado sem memoria como se ontem mesmo eles tivessem se encontrado e sentado na praia para limpar as redes e desenrolar os nós formados.

– Continue, Aloisio. Eu quero ouvir o que você tem a me dizer.

Tomás mais parecia um delegado sentado em sua mesa ouvindo as explicações de um casal detido por brigar de madrugada acordando a vizinhança. Estava calmo como se fosse tomar uma decisão somente após ouvir o veredito.

– A verdade é que eu apenas sobrevivi nesse quase um ano. Nunca mais fui acompanhar as partidas de futebol de fim de semana. Sequer me sentei no fim de tarde para ver as belas turistas na praia ou…

– E as crianças e famílias que você ajudava no Natal, Aloisio?

O pescador sentiu remorso e vergonha de si mesmo.

– Me diga por que no ultimo natal você interrompeu a tradição de tantos anos?

– Não sei.

E ainda prosseguiu:

– Acho que perdi minhas forças desde aquela noite. Já te disse que estou apenas sobrevivendo e que por vezes a solidão tem me feito pensar em coisas que nunca pensei antes. Coisas como desistir de tudo, do emprego, da vila, das crianças, da minha vida…

– Entendo.

E permaneceram 350 segundos em silêncio, segundos que mais pareciam horas ainda mais com o sol que começava a centralizar num céu tão azul quanto o mar.

– Naquela noite eu tive medo, Aloisio. Medo da imensidão e poder do mar. Medo por ser só uma poeira em todo aquele gigantesco mar azul. Medo por saber que não conseguiria nadar em um mar tão bravo. Medo por saber que deixei tantas coisas inacabadas em minha vida. Medo por não reencontrar as pessoas que quero bem. Medo por abandonar as pessoas que precisam de mim. Medo por não ter me desculpado com alguém… Mas, sobretudo senti mais medo de que você tentasse voltar pra me ajudar! Porque eu sabia que se vocês voltassem teríamos mais três pessoas lutando contra o mar furioso.

– Eu pensei 350 vezes em voltar…

– Trezentos e cinquenta… Por que você tem esse fascínio com esse numero mesmo, Aloisio?

– É o tempo que consigo prender a respiração em segurança. Você sabe que quando mergulhamos devemos ter uma noção mínima do tempo que…

– Você realmente acha que é por isso?

Aloisio parou e tentou entender o que o amigo queria dizer.

– Será que você realmente nunca tentou se aprofundar sobre isso? Sei lá, procurar uma terapia ou ainda ler a respeito. Temos tantas bibliotecas e Guimarães é o berço cultural de nosso país.

– Você lendo um livro? Eu me lembro de vê-lo folhear apenas o caderno de esportes do jornal, Tomás. Ou vai me dizer que na ilha que você ficou existia uma biblioteca?

– Você tirou apenas o lado ruim da solidão, Aloisio. Você apenas ouviu os maus conselhos dela sem ao menos tentar ver que os momentos a só servem para refletirmos sobre erros passados, sobre nossos passos futuros, sobre aprendizado mesmo sem livros. O tempo sozinho talvez sirva para isso, para organizarmos nossas vidas, pensamentos e crenças. Você deveria tentar absorver um pouco mais o lado bom da solidão. Eu fiz isso nesses 350 dias.

Aloisio começou a achar que estava sonhando novamente. Tomás não era esse sábio que estava explicando sobre as faces da solidão. Tomás era uma pessoa de bem, alegre, calmo, mas nunca fora um conselheiro de nada.

– Aloisio, eu vim aqui para perdoá-lo.

– Como?

Aloisio já tinha ouvido muitas histórias de pescadores perdidos em alto mar que com o tempo e a falta d´água caem na armadilha de beber agua do mar e com isso apenas aceleram o seu calvário. Sabia que muitos perdem noção do tempo e começam a delirar, mas isso não podia estar acontecendo com ele já que estava a menos de um dia perdido no oceano.

– Aloisio, eu vim aqui para perdoá-lo e também para ajuda-lo a reencontrar o seu caminho. Você não pode continuar atormentado por esse fantasma do passado e nem deve deixar de cumprir o seu papel por causa de mim.

Bem no alto um avião cruzava o céu tão longe que mal podia ser visto. Qual seria a altura dele? 350 metros? Não, seria muito, mas muito mais! Talvez houvesse 350 passageiros a bordo desse avião e nenhum teria sido capaz de enxergar um minúsculo barquinho na imensidão azul do oceano.

– Aloisio, se for preciso eu digo 350 vezes que te perdoo. Mas nenhuma delas mudará algo se você mesmo não se perdoar. Já te disse que você fez o certo naquela noite!

– Você não é real, Tomás! Eu estou delirando! Mas, estou aqui há menos de um dia! Como isso é possível?

– E eu estou aqui há 350 dias, portanto conheço esse lugar melhor do que você.

Aloisio Inácio travava uma batalha duríssima com a sua mente. Não queria mais acreditar e toda a alegria que teve momentos atrás em reencontrar o amigo se transformou em duvida. Achava que nada era real e que logo acordaria de mais um pesadelo. Sabia que o amigo estava morto e mesmo com todos aliviando o seu lado, ainda assim se culpava por isso. Muitas vezes gritava que ele fez o certo e espalhava isso para todo mundo, mas na verdade ele sempre se culpou por aquele dia. E isso era a sua âncora que o mantinha preso no mesmo estágio da sua vida, incapaz de içar velas e seguir em frente no mar da vida.

Sentia sede e o calor do sol queimava a sua pele. Tampou os ouvidos com as duas mãos e começou a gritar com os olhos fechados acreditando que ao abri-los não veria mais Tomás.

Mas ao abri-los o náufrago magro continuava a fita-lo com um olhar de pena e isso o enlouqueceu.

– Não aguento mais esse sol! Minha pele está queimando! Minha garganta está raspando de tão seca! Está se fechando! Não posso mais respirar! Ahhhhh…

Agora Aloisio estava em paz.

Ele voava num belo céu azul e a temperatura estava amena. A ardência de sua pele cessou e sentia apenas o gosto salgado que imaginou ser de suas lágrimas. Lágrimas de alegria, ele supunha.

Era tão bom voar nesse lindo céu azul. E ao avistar um estranho pássaro escamoso ele percebeu que não voava, mas sim nadava. Ou melhor, se afogava.

O desespero tomou conta de si e instintivamente ele tentou respirar com toda a força dos seus pulmões e o azul a sua volta foi se escurecendo da mesma forma que um cinema vai gradualmente diminuindo suas luzes no inicio do filme.

***

– Homem ao mar!

O convés estava encharcado e os braços do pescador até tremiam de tanta força que fazia na tentativa de segurar o timão.

– Homem ao mar!

Aloisio Inácio sorria diante de toda a adversidade. Lembrou-se do filme “Waterworld” que assistiu quando era uma criança em uma fita de videocassete. O planeta Terra era agora o planeta Água e as pessoas viviam em pequenas ilhas artificiais e em grandes navios cidades. Não existia mais terra firme.

– Homem ao mar!

Com a evolução nesse mundo aquático os humanos desenvolveram membranas nas mãos e pés para facilitar o nado. Como se chamava o ator do filme mesmo? Acho que era Kevin “Costa”, ou algo parecido.

– Homem ao mar!

A chuva e o vento soavam como uma forte voz gritando que havia um homem ao mar. Estranho isso, porque Aloisio Inácio sabia que estava sozinho conduzindo o barco. Não havia mais ninguém ali com ele, portanto essa voz era fruto da sua imaginação.

– Você realmente está sozinho nesse barco, Aloisio.

– Tomás, você por aqui? Me ajude a segurar o timão. Essa tempestade está me cansando os braços.

– Somente você pode conduzir o barco da sua vida, Aloisio.

– Não diga bobagens, meu amigo. Estou até ouvindo coisas de tão cansado que estou. Estou ouvindo alguém gritar “homem ao mar”.

– Você é o homem no mar, Aloisio.

***

Abriu os olhos e viu uma centena de bolhas de ar a sua volta. Não sabia para que lado nadar, mas então viu uma luz brilhante e não teve duvidas. Parecia ser a mesma luz brilhante que o fez adentrar no oceano seguindo sem rumo. Nadou nessa direção e seu peito queimava pela falta de ar.

– 344.

– 345.

– 346.

– 347.

O seu fôlego estava acabando, mas já via a luz brilhante mais perto.

– 348.

– 349.

– TREZENTOS E CINQUENTA! – e gritou repondo o ar de seus pulmões logo em seguida. Tinha seguido a luz brilhante que agora ele sabia que era o sol.

O seu pequeno barco estava apenas alguns metros dali e nadou até lá para segurar na borda e descansar por uns instantes.

– Precisa de ajuda pra subir, meu amigo?

Tomás, o náufrago, estava ali ainda e o ajudou a subir.

– Você viu algo lá embaixo, Aloisio?

E de repente a memória e a clareza começaram a voltar para a cabeça do pescador. Estava há dias perdido no mar e não somente desde ontem. Tantos dias que os pães que trouxera tinham até mesmo embolorado. O galão de água praticamente acabou mesmo com todo o racionamento que ele fez. Mas o pior de tudo foi que ele sabia que tinha adentrado no mar não em busca de uma luz brilhante.

O que mais doía era saber que ele entrou no mar seguindo o pior conselho que a solidão lhe deu: termine com tudo.

Aloisio Inácio sabia que tinha fracassado no seu suicídio da mesma forma que fracassou no dia em que perdeu Tomás no mar.

– Meu amigo Aloisio! Você não fracassou naquele dia! Eu já te disse que você fez o certo! A sua coragem salvou a vida de mais duas pessoas naquela noite!

Aloisio chorava lágrimas suficientes para 350 pessoas.

– Me perdoe, Tomás! Eu sinto muito.

Dói demais ver uma criança chorando quando rala o joelho em alguma brincadeira. Dói mais ainda quando vemos algum animal morto e os filhotinhos ficam envolta sem entender o que está acontecendo. E ver o choro sincero de um adulto atormentado por todos os seus fantasmas de culpa também dói muito, ainda mais por saber que essa pessoa chegou tão ao fundo do poço que até mesmo tentou por um fim em tudo.

Tomás sabia que ajudar o amigo Aloisio também iria lhe ajudar, pois isso era uma forma de ele se desgarrar também da culpa que sentia por saber que o amigo perdeu o rumo da vida por lamentar a perda de um tripulante em alto mar. Talvez essa fosse a coisa que estava faltando, a missão inacabada de Tomás.

– Meu amigo Aloisio, eu te perdoo e espero que você também possa me perdoar por tê-lo feito chegar à ruina durante esses 350 dias. Se eu caí no mar, muito foi por minha culpa que não estava dando a devida atenção a toda fúria do mar naquela noite.

– Por favor, me perdoe Tomás.

– Eu já te perdoei Aloisio. Mas quem deve se perdoar é você. Você deve retomar com a sua vida e seguir tentando ajudar as pessoas no Natal e no ano todo como você sempre fez.

E ainda continuou:

– Você nasceu num seis de dezembro, Aloisio. Justamente no mesmo dia que São Nicolau de Mira. E o numero 350 que tanto te persegue não é somente o tempo que você consegue prender a respiração, mas também é o ano da morte de São Nicolau.

– São Nicolau?

– Você talvez o conheça por Papai Noel, meu amigo. Afinal, ele foi transformado no bom velhinho. São Nicolau o abençoa desde o seu nascimento e você sem saber acreditava piamente que o numero 350 era apenas coisa da sua cabeça.

Nesse instante uma luz no mar chamou a atenção de Aloisio Inácio por um momento. Era exatamente a mesma luz que ele perseguiu as cegas dias atrás.

– Aquela luz…

– Sim, meu amigo Aloisio. Você veio até mim guiado por aquela luz. Vá ao encontro dela!

E Aloisio Inácio remou com a pouca força que lhe restava até o encontro da luz para então desmaiar.

***

– Tomás?

Aloisio Inácio se viu deitado numa pequena cama com um colchão tão fino que ele podia até sentir o estrado nas costas.

Sentou-se e percebeu que vestia roupas que não eram dele. Olhou em volta tentando reconhecer o lugar, mas nada. Pela pequena janela redonda imaginou que estava a bordo de algum navio.

– Tomás?

Um senhor de barba branca e rala entrou na cabine trazendo uma bandeja com alguns biscoitos e uma jarra de água.

– Acordaste, rapaz?

– Tomás… onde está Tomás?

– Ele esta aqui em toda a sua volta, rapaz.

– Como?

Estaria delirando ainda? Ele nem sabia por quanto tempo esteve perdido ou dormindo. E agora ele mal sabia diferenciar a realidade da fantasia, não reconhecendo o que de fato aconteceu ou sonhou. E esse senhor com essa barba branca… por um momento pensou ser o papai noel com a barba aparada.

– Você está a bordo do Tomás, um navio pesqueiro, rapaz. Você teve muita sorte, pois encontramos você perto do fim. Talvez um dia a mais e teria sido tarde demais.

– Tomás estava comigo. Não tinha mais ninguém no pequeno barco?

– Não, só você. Já te disse que Tomás é o nome desse navio. Sua mente esta pregando uma peça em você, rapaz. Isso é muito comum nas pessoas perdidas em alto mar.

Confuso era o adjetivo que definia Aloisio Inácio nos últimos dias.

– Tente comer um pouco e se hidratar mais. Já estamos perto da costa e logo você estará em terra firme. A marinha já nos informou sobre o seu desaparecimento. Você teve sorte, rapaz. Reze em agradecimento.

– Sim, o farei 350 vezes.

***

Aloisio Inácio voltou para a sua casa onde viu muitas pessoas felizes com o seu retorno. Mesmo sendo pouco sociável, todos viam o bem que ele sempre fez ajudando as pessoas da vila. Sentir-se amado e querido talvez seja o melhor sentimento do mundo.

O pescador entendia agora que precisou ficar 350 dias perdido e apenas sobrevivendo para ter a sua penitência. Ele entendeu que precisava ser perdoado por Tomás, mas que antes de tudo precisaria se perdoar por tudo.

Não teria como voltar atrás e refazer tudo, mas ele deveria seguir adiante e retomar todos os seus afazeres, principalmente com os mais carentes que ele tanto se esforçava para ajudar.

Na sua casa ele encontrou o barquinho feito de concha colado, mesmo que toscamente. Algum vizinho deve ter entrado ali o procurando e fez o reparo no artesanato. O barquinho estava inteiro novamente, mas a marca da rachadura estava ali como uma cicatriz.

Uma cicatriz para fazê-lo lembrar de seu amigo Tomás.

E para saber que às vezes é preciso nos quebrar por completo para enfim perceber e admitir que necessitamos de um conserto.

E somente após um tempo ele entendeu que a luz que ele buscou naquela noite no mar era a sua fé e o perdão.

E que finalmente ele os tinha encontrado.

Reinaldo da Cunha Yado

O mar (350 dias) – parte 1

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O vento transformava cada onda em uma montanha a ser escalada. O motor do pequeno barco de Aloisio Inácio aumentava a rotação para transpor esses obstáculos que pareciam cada vez maiores. Sentia que a maquina estava próxima do limite, tal qual quando um cavalo de corrida dispara no sprint final de um páreo. As mãos do pescador manejavam a alavanca de aceleração com a mesma firmeza que um jóquei atiçava uma varinha em seu cavalo.

Estava escuro e o barulho do vento parecia compor a mais tensa sinfonia que precede o momento mais nervoso de uma ópera. E pra piorar, chovia.

Chovia tanto que por ora achava que tinha mais água caindo do céu do que sob o casco da pequena e valente embarcação.

– Homem ao mar!

Somente um pescador acostumado a mergulhar horas por dia teria tanta força nos pulmões para gritar com tanta força. Talvez somente um mergulhador que consegue prender a respiração por trezentos e cinquenta segundos.

Aloisio Inácio ouviu claramente, mesmo com toda a sinfonia da tempestade importunando seu ouvido.

– Homem ao mar!

E foi então que viu, graças ao clarão de um trovão, o azarado homem se debatendo inutilmente contra o mar mais revolto que já vira.

Não havia o que fazer. O destino desse homem estava selado. Assim como o deles se tentassem dar meia volta com a pequena embarcação.

Jamais conseguiriam se aproximar do homem. Temeu que 350 segundos para prender a respiração talvez não fossem suficientes.

– Homem ao mar!

***

O mar.

Ouviu dizer que toda vida se iniciou ali. E até hoje toda a vida que possuía fora tirada dali.

Mas, também já viu o mar levar embora sonhos e alegrias para mais tarde devolver tristezas e pesadelos.

Aloisio Inácio era fascinado por essa imensidão azul e considerava o oceano o seu melhor amigo. Também era a sua eterna namorada que sempre o seduzia com o vai e vem encantador das ondas tal qual uma dança perfeitamente ensaiada ou um corpo suado na hora do amor.

Sempre acreditou que a mulher que um dia ocupasse o espaço vago em seu coração deveria fasciná-lo todos os dias assim como o mar o fazia. Reconheceria esse amor quando uma semana longe o faria se sentir incompleto, da mesma forma que se sentiu na única vez em que se lembra de ter ficado longe do litoral.

Na verdade Aloisio Inácio nasceu em um longínquo seis de dezembro em Guimarães, cidade considerada o berço de Portugal. A cidade fica a pouco mais de cinquenta quilômetros do Oceano Atlântico, mas ele não tinha quase nenhuma lembrança desta sua vida longe do mar.

A brisa que trazia o cheiro do mar era uma das coisas mais prazerosas para Aloisio Inácio. Sempre abria os braços, fechava os olhos e sentia sua pele ser acariciada pelo vento e imaginava se essa mesma brisa também teria balançado os cabelos de alguém além mar.

Todas as manhãs, antes do sol dar as caras ele molhava seus pés na água ainda gelada, fazia uma oração pedindo proteção, beijava o santinho que sempre carregava no pescoço, contava até trezentos e cinquenta e rogava pedindo bons frutos em mais um dia de trabalho.

E todas as tardes recolhia o pequeno barco no cais, observava o sol se esconder na água e agradecia. Mesmo que a pesca não tivesse sido produtiva ainda assim agradecia porque voltara vivo mais uma vez para casa.

Acreditava que a vida de simples pescador era tal qual a vida de um policial, pois se arriscava diariamente em seu velho barquinho. Nas vezes que mergulhava sempre contava até no máximo trezentos e cinquenta, pois acreditava esse ser o limite de tempo que conseguia prender a respiração. E talvez por isso desenvolveu um certo fascínio (ou loucura) com o numero 350.

Aloisio Inácio sempre fora pobre, porem feliz. Nunca passou fome, apesar da eterna dificuldade em conseguir crescer economicamente. A sua “fortuna” se resumia ao pequeno barco a motor que era a sua fonte de renda e a sua pequena e simples, mas bem localizada casa.

Da sua janela podia ver o mar, a sua eterna paixão e isso era o suficiente para ser feliz.

Ao menos era.

Desde o dia que fora obrigado a abandonar um colega pescador no oceano numa noite de mar em fúria a sua vida começou a descolorir tal qual uma aquarela que perde a sua beleza com o tempo.

Isso o atormentava todo dia e acreditava que nos 365 dias do ano ao menos em 350 ele chorava.

Sentia-se culpado.

Além disso, a solidão o machucava demais.

Você pode sorrir quando se está com os amigos, pode comemorar um dia que ganha mais dinheiro que o normal, você pode sentir prazer ao provar uma comida que lhe agrade o paladar ou ainda pode se sentir abençoado quando a chuva molha o seu rosto e você não precisa se preocupar em se manter seco para algum compromisso… Mas quando a solidão toma o seu coração ela é impiedosa.

A solidão pode ser a pior conselheira que terá em sua vida, sugerindo sempre a loucura ou a vontade de desistir de tudo. Dói demais.

A solidão parece querer abrir seus olhos mostrando que a sua vida não é boa e que os seus momentos de felicidade são tão escassos quanto flores no outono. Ela mente pra você o fazendo pensar que para cada dia feliz talvez existissem 350 dias tristes.

Ela faz parecer até que todos ao seu redor são melhores e mais felizes e mesmo que isso não fosse verdade, a solidão o fazia acreditar piamente nisso. Ela mais parecia um candidato que debate ferrenhamente sobre os seus planos no horário politico.

A solidão possuía um discurso tão contundente que sempre convencia Aloisio Inácio de que a sua vida era extremamente triste.

Apesar de tudo isso, o pescador era uma boa pessoa. Não fazia mal a ninguém, tampouco discutia ou irritava alguém. Era tão solitário que nos poucos momentos de convivência social tentava ao máximo passar despercebido.

Como nascera num seis de dezembro nunca ganhou presente de natal. Sua família era muito humilde e seus pais compravam uma simples lembrança no seu aniversário e devido à proximidade com o Natal eles não tinham condições de gastar com mais um presente.

Talvez por isso Aloisio Inácio tornou-se um homem solidário no Natal. Até parece clichê demais isso, porque boa parte das pessoas ao menos tenta ser melhor no Natal, mas a verdade é que o pescador gastava boa parte do seu dinheiro comprando alimentos e até mesmo brinquedos para as pessoas mais carentes que ele.

O seu maior sonho seria ajudar 350 pessoas, mas sendo um homem bem humilde nunca conseguiu arrecadar tanto dinheiro para tal.

Mesmo sem saber, Aloisio Inácio já era uma pessoa muito melhor que a esmagadora maioria da população, pois é fácil doar um milhão de euros para caridade se você possui outros cem milhões na conta bancária.

É muito fácil você fazer uma doação quando o pedinte vai até a sua casa e todo o altruísmo naufraga quando você faz alguma boa ação tendo algum tipo de interesse por trás.

Muitas pessoas até colaboram com os necessitados, mas sentem uma necessidade tremenda em contar para todos como se isso fosse uma autopromoção. Por sorte Aloisio Inácio nem sabia o que era uma rede social online, porque certamente iria se decepcionar em ver os bondosos por ocasião.

Ele acreditava que se houve vaidade não existiu bondade.

***

– Trezentos e quarenta e sete.

– Homem ao mar!

– Por que me abandonaste, Aloisio?

– Homem ao mar!

– Trezentos e quarenta e oito.

– Homem ao mar!

– Por que não voltou pra me ajudar, Aloisio?

– Homem ao mar!

– Trezentos e quarenta e nove.

– Homem ao mar!

– Trezentos e cinquenta.

– HOMEM AO MAR!

Novamente o simples pescador acordou do mesmo pesadelo que o atormentava há quase um ano desde o fatídico dia.

Suou demais durante o sonho ruim e chorava tanto que acreditava estar tão molhado quanto no dia do quase naufrágio. Quando seus olhos se acostumaram com a escuridão do seu quarto notou que a pequena miniatura de um barco a vela feito de concha tinha caído e se quebrado.

O barquinho nem era como aqueles que os artesãos vendem nas feirinhas de praia, mas tinha sido feito pelo seu amigo Tomás, aquele que fora deixado em alto mar.

Aloisio Inácio juntou os cacos do barquinho enquanto seu corpo secava com a fria brisa que entrava pela janela aberta chacoalhando a cortina desbotada.

Mais uma lágrima verteu quando percebeu que a assinatura de seu amigo na concha tinha se partido. Esse barquinho não flutuaria mais nem em uma pequena poça de chuva.

A brisa rugiu mais forte abrindo a porta de madeira feita de um velho casco de barco.

– Por que me abandonaste, Aloisio?

O vento pareceu trazer o eco dessa frase que ecoava em sua mente. Dessa vez ouviu tão perfeitamente a voz do falecido amigo que o pescador correu para a porta vendo a luz da lua refletindo no mar escuro.

Fixou o olhar próximo do horizonte e teve a sensação de ver algo brilhando na água. Estreitou a visão e desceu até a praia.

A brisa já tinha se transformado numa ventania que pouco a pouco aumentava as ondas. Era madrugada de um dia qualquer, talvez o trecentésimo quinquagésimo dia do ano. Não sabia.

E o vento novamente soprou em seu ouvido:

– Por que não voltou pra me ajudar, Aloisio?

E agora viu mais claramente o objeto brilhante no meio do mar. Como o cais ficava longe ele resolveu pegar um pequeno barquinho a remo que se encontrava na praia para remar até o misterioso objeto.

Esquecera até mesmo de fazer o seu ritual antes de entrar no mar e só se lembrou quando já estava longe da praia remando com seus vigorosos braços. Esquecera de fazer a sua oração de proteção, não beijou o seu santinho no pescoço e sequer contou até 350!

Ele nunca tinha se esquecido disso!

Remava forte e rápido igual aos competidores de uma olimpíada, mas a maré parecia levar o objeto brilhante para mais longe. Obcecado por isso o pescador seguia com as braçadas sem se preocupar com mais nada. Mal notara que o vento já estava forte prenunciando chuva e mar agitado.

Remou sem parar até onde o fôlego o levou e então parou.

Estava escuro.

Estava só.

E agora nem sabia mais para qual lado ficava a praia.

Não via mais o objeto brilhante e agora se questionava se de fato esse objeto existiu. Pensou até que estava sonhando, mas a dor em seu peito por respirar tão acelerado o trazia de volta à realidade.

Sentiu-se um idiota. E um idiota perdido.

Recolheu os remos e se deitou esperando que a luz do sol trouxesse a visão de terra.

Olhou as estrelas que apareceram assim que as nuvens se espalharam com a ventania. Fechou os olhos e dormiu.

Quando acordou sentiu o corpo todo dolorido e parecia que nem tinha dormido, mas sim apenas contado até 350 com os olhos fechados. A luz do sol trouxe um novo dia e um pedido de socorro:

– Me ajude!

Levantou o corpo tão rapidamente que a cabeça até doeu com o fluxo de sangue. E o pequeno barco balançou no mar calmo.

– Me ajude!

Aloisio Inácio avistou um homem agarrado a um pedaço de madeira a poucos metros do seu barco. Remou até lá e ajudou o homem a subir no barquinho.

O homem era o típico naufrago que vemos nos filmes: magro, barbudo, cabeludo e com pele queimada pelo sol.

Ele se deitou no barco e pouco a pouco diminuiu o ritmo de sua respiração conforme ia descansando.

Aloisio Inácio imaginou há quanto tempo esse homem estava perdido e certamente já devia estar nadando há horas, pois estava muito cansado.

– Trezentos e cinquenta dias.

– O quê?

– Nas minhas contas estou perdido há 350 dias.

Aloisio Inácio se assustou porque o náufrago pareceu ter lido o seu pensamento.

– Primeiramente fiquei numa ilha e como lá não tinha muito que fazer eu risquei os dias numa pedra. Cansei de esperar por um resgate e construí uma jangada três dias atrás. Mas a ventania de ontem a noite venceu a embarcação e eis me aqui.

Aloisio Inácio levantou o banco do pequeno barco e dentro desse pequeno compartimento encontrou um galão d’água e alguns pães duros e embolorados, além de apetrechos de pesca.

– Eu sempre soube que você voltaria pra me buscar, Aloisio.

O pescador derrubou o pão embolorado e tremeu. Olhou bem nos olhos do náufrago e por trás da barba e cabelo desgrenhado reconheceu o rosto do seu amigo:

– Tomás?

***

continua…

Reinaldo da Cunha Yado

Réquiem

 pianista

( Para uma experiência mais profunda na leitura ouça as músicas conforme aparecerem os links)

***

Sem a música, a vida seria um erro”.  Friedrich Nietzsche

***

Ana Rita nunca tinha ficado longe dos seus pais.

Morou com eles até mesmo quando cursou a faculdade já que estudava num campus distante apenas uma hora de sua casa.  Sabia melhor do que ninguém que iria sofrer muito agora que iria morar sozinha num velho prédio residencial próximo ao emprego que arrumara do outro lado da cidade:

“- Seria muito cansativo atravessar a cidade todo santo dia!”

Trabalharia num grande laboratório de pesquisas afiliado ao Instituto Butantan e esse seria o emprego dos seus sonhos não fosse o horário de serviço: trabalharia durante a noite!

Ana Rita sempre foi uma moça religiosa e quase nunca frequentava as festas e noitadas. Sempre foi a caretona da classe de faculdade, pois dormia cedo e acordava antes do sol e agora trocaria o dia pela noite no trabalho! Ao menos receberia muito mais para tal.

Como era uma moça muito caseira desde pequena aprendeu os serviços de casa e cuidar da sua própria comida e roupa não seria nenhuma dificuldade para ela, mas a solidão e a insegurança que sempre sentia poderia ser um grande problema.

Com a ajuda do seu primo descarregou os seus poucos pertences no apartamento e pouco a pouco foi arrumando a pequena bagunça. O prédio era antigo e os estalos que o velho elevador fez certamente a encorajaria a subir os lances de escadas todo santo dia. Da janela do seu quarto podia ver a pequena praça situada no outro lado da rua e pensou que isso poderia ser uma vista muito reconfortante se ela estivesse bem cuidada e com menos mendigos espalhados pelos bancos.

Conversou com a única pessoa que encontrou no prédio: Seu Odair, o porteiro. Ele disse que os moradores basicamente usam os apartamentos apenas para dormir e durante o dia era um sossego digno de uma pequena cidade do interior. E a maioria dos moradores não ficava nos fins de semana, pois há muitos jovens e estudantes que acabam voltando para as suas cidades ou indo para bairros onde a “noite acontece”.

Ana Rita seria mais solitária do que nunca, já que à noite quando há moradores no prédio ela trabalharia e durante o dia quando não há ninguém ela ficaria em casa!

Iniciou no trabalho no dia seguinte e se sentiu segura ao ver que o porteiro saiu na frente do prédio para vigiá-la enquanto tomava o ônibus no ponto da esquina. Era uma mulher alta e muito magra, com cabelos escuros longos e encaracolados. Seus óculos grandes estavam em alta ultimamente, logo essa mesma armação grande que tantos apelidos lhe renderam na infância. A moda realmente é algo muito esquisito e o que é brega e feio hoje certamente será cultuado em alguns anos!

“- O pop de hoje será o cult de amanhã, Ana Rita! Pode ver! Na música funciona dessa forma desde os anos 50, década após década!”

Essa frase era de Murilo, um rapaz gordo com cabelo comprido (e mal cuidado), um dos poucos amigos de Ana Rita. A falta de popularidade de ambos acabou criando essa amizade, talvez numa forma de um proteger e consolar o outro.

Ana Rita adorou o novo trabalho e certamente iria aprender muito. Em pouco tempo seu corpo se acostumaria à vida noturna que nunca teve e logo não precisaria mais de tanto café para ficar alerta e atenta. Também comia muitas maçãs, já que Murilo lhe disse que é muito eficaz para espantar o sono.

Ao voltar para o seu prédio encontrou uma moça bonita falando ao celular. Seria uma vizinha? Alguém com quem pudesse conversar?  Ao menos por hoje não saberia, pois a mulher passou correndo e sequer deu bom dia, costume esse cada vez mais em falta nas apressadas cidades grandes. E como a moça estava com óculos escuros (num dia nublado por sinal) Ana Rita nem soube se ela a vira ali parada na escada de entrada do prédio.

Acho que a pressa torna pessoas e coisas invisíveis.

A pressa cega.

***

Era apenas a primeira semana morando sozinha e ela já ansiava por companhia. Acreditou que seria capaz até mesmo de superar a sua timidez para não se sentir sozinha e estava disposta a conversar com estranhos e até com pessoas muito diferentes dela.

Quantas amizades não poderiam nascer de uma dessas conversas? E quantas amizades foram abortadas pelo simples preconceito ao ver alguém extremamente tatuado e julgá-lo bandido?

Quantas vezes você deixou de ajudar um catador de sucatas na rua que derrubou caixas de papelão e garrafas pet do carrinho pelo simples medo de ele ser um ladrão ou um usuário de crack que lhe fará mal ao tentar ajudar?

Ana Rita sabia que o medo da violência maximizava o preconceito. As pessoas não se ajudavam mais por livre e espontânea vontade, porque sempre estavam atrasadas para algo e o receio de tudo nos impedia nas vezes que temos tempo de sobra.

Poucas vezes o mundo é gentil.

Gentileza não nos dá mais tempo. Tampouco dinheiro.

Chegou ao apartamento e resolveu assar um bolo de cenoura com cobertura de chocolate da mesma forma que sua mãe sempre fazia quando estava triste. O mais engraçado é que depois de pronto ela sequer experimentava e talvez fazer o bolo servisse para livrá-la da tristeza, como se fosse um ritual.

Misturava a massa como se juntasse todos os sentimentos em uma vasilha e depois untava uma forma de alumínio como se criasse uma fina camada para proteger esses mesmos sentimentos para eles não queimarem ou grudarem, pois se assim for será trabalhoso tirá-los ou apaga-los.

Depois apenas observaria seus sentimentos protegidos ganhando cor no forno e isso a fazia pensar que tudo pode ser transformado. Até mesmo a sua raiva e tristeza seriam assadas no forno e se transformariam em amor e tiraria um sorriso daqueles que morderem uma fatia do bolo.

Depois derreteria o chocolate em pó em uma pequena panela e imaginava o vapor cheiroso levando a tristeza embora tal qual num processo químico. Espalharia o chocolate por igual em todo o bolo para saber que deveria dividir tudo igualmente com as pessoas e ninguém comeria de forma desigual não importando se está no centro ou nas beiradas da forma.

Acho que a distribuição de renda (e de comida) deveria ser assim também não importando se você mora no centro de tudo ou está esquecido nos cantos onde quase sempre o bolo fica mais murcho, queimado e sem cobertura.

Ana Rita agora entendeu porque sua mãe cozinhava o bolo quando triste. O processo a fez pensar e recolocar todos os seus pensamentos em ordem. Restava esperar o bolo esfriar para cortar os pedaços certinhos.

Sorriu ao se lembrar que quando criança sempre queimava os dedos na pressa de comer ou ainda cortava e melecava toda a faca sem ponta com a calda ainda mole.

Ana Rita se deitou e sonhou que usava um vestido de gala em um grande teatro com todo o luxo de décadas atrás. Os homens usavam smokings com lenços ou rosas nos bolsos e as mulheres trajavam vestidos longos e coloridos com muitas rendas e com grandes chapéus que certamente atrapalhariam a visão daqueles que se sentassem atrás.

Assistia a um concerto de um pianista e se emocionava tanto que Murilo estendeu-lhe a mão para entregar um lenço com suas iniciais bordadas com linha azul clara. Murilo estava com o cabelo curto e belíssimo com a roupa social!

Acordou e enquanto se espreguiçava ainda podia ouvir os acordes finais do piano, como se o sonho ainda continuasse. Ou com o quarto escuro talvez fosse a musica tocada enquanto os créditos finais do filme sobem na tela grande de um cinema.

Olhou no relógio e viu que era próximo da hora do almoço. Ainda era muito estranho trocar o dia pela noite e para isso a primeira coisa que fez foi colocar uma cortina com tecido escuro na janela do seu pequeno quarto.

Esperou um pouco mais até seus olhos se acostumarem com a pouca luz e pouco a pouco foi abrindo a cortina permitindo que a luminosidade entrasse pelas pequenas frestas da velha e descascada janela de madeira.

Então o som do piano do seu sonho recomeçou (https://www.youtube.com/watch?v=vD_ttb4eVVg) revelando uma linda e triste canção que Ana Rita desconhecia, mas ainda assim pareceu tocar o fundo da sua alma. Era como se a conhecesse e fosse capaz de cantar a melodia em sua cabeça mesmo tendo ouvido apenas uma vez. Abriu a janela e o sol a cegou por alguns segundos, mas isso não importava já que o único sentido com que ela se preocupava no momento era a audição. Com a janela aberta poderia ouvir melhor o som do piano que aparentemente vinha do andar de cima.

Ana Rita despertou mesmo com a melodia triste. Sempre gostou de músicas e filmes tristes e o atual momento em que se sentia insegura e solitária combinou perfeitamente com a melodia ouvida. Cortou o bolo de chocolate e separou alguns pedaços em um pratinho branco com desenhos de flores nas beiradas, cobriu com papel toalha e então subiu as escadas até o andar de cima sendo guiada pelo som do piano.

Cinco leves toques na porta de madeira cessaram o som do piano e por um momento ela se arrependeu por não ter esperado a musica terminar antes de bater à porta. Sentiu-se como um juiz batendo o martelo e definindo a sentença do silêncio.

Mais três toques na porta quebraram o silêncio que só foi quebrado novamente por uma voz masculina:

– Algum problema, Odair?

– Desculpe-me interrompê-lo, senhor. Eu sou nova aqui no prédio e moro no andar de baixo…

– Seja bem vinda, garota. – interrompeu a fala de Ana Rita – Não posso abrir a porta agora. Tenha uma boa tarde.

Ana Rita se viu frustrada na sua tentativa de um diálogo para acalmar a solidão.

– Eu fiz bolo de cenoura com chocolate. Trouxe um pedaço. – mas não ouviu nenhuma resposta.

– Deixarei aqui nessa mesinha do corredor. Depois eu passo pegar o prato de volta, ok? – e novamente ficou sem resposta.

– A música que você tocou… É linda!

Voltou para o seu apartamento onde almoçou um macarrão instantâneo com molho de tomate, queijo parmesão e algumas almôndegas que comprou no mercado. Ana Rita gostava de cozinhar, mas o bolo tinha sido a sua cota do dia à frente do fogão.

Ela precisava conversar com alguém porque essa solidão de alguns dias já parecia uma estação inteira. Apesar de não ser popular e ter poucos amigos, Ana Rita conversava sempre com seus pais, primos e vizinho que moravam todos no mesmo bairro.

Pouco antes do anoitecer foi trabalhar, mas antes lavou o potinho plástico das almôndegas, colocou um pedaço de bolo e entregou ao porteiro Seu Odair, o único bate papo de Ana Rita nos últimos dias:

– Temos um pianista no prédio?

– Sim, o Senhor Alfredo! Pobre homem.

– Pobre homem?

– Perdeu a esposa e os dois filhos ano passado. Uma tragédia!

– Que triste! Levei um pedaço de bolo para ele também…

– E ele nem abriu a porta?

– Exato!

– Pobre Alfredo. Depois do acontecido ele se fechou naquele apartamento. Pede comida e até mesmo as compras do supermercado ele manda entregar. Nas raras vezes que sai veste um velho chapéu de lã e anda pelas sombras, evitando a todos.

Ana Rita se achou mesquinha por estar toda triste apenas porque está algumas horas distante de sua família. Sentiu-se fraca por reclamar de uma solidão de alguns dias enquanto Alfredo perdeu o leme do navio e hoje está com a vida à deriva.

Sabia que por mais que reclamemos dos nossos problemas sempre há alguém em situação muito pior. Há pessoas com problemas de verdade e muitas delas não conseguirão sair dessa justamente porque já perderam o alicerce.

Triste e pensativa foi trabalhar.

***

Na manhã do dia seguinte encontrou o pratinho branco com desenho de flores na porta do seu apartamento com um bilhete escrito a mão com letra de forma: “O bolo estava delicioso. A música se chama Adagio em Gm de Tomaso Albinoni. Obrigado. Alfredo”.

Alfredo se isolou do mundo e dia após dia a tristeza inundava a sua alma. Já se aproximava das sete décadas de vida, cinco delas vividas ao lado da esposa. Sempre foi um homem quieto e de poucos amigos e nesse ponto era muito parecido com Ana Rita.

O velho pianista trabalhou a vida toda e a sua aposentadoria era suficiente para sobreviver. Não tinha luxo e como nunca se destacou no seu serviço terminou por ser apenas mais uma abelha igual às outras da colmeia.

Tocava por hobby e se aperfeiçoou porque nunca saiu muito de casa e assim aproveitava as horas livres para praticar. Depois de se aposentar, teve mais horas livres para melhorar.

Anos atrás o seu calvário começou quando a esposa descobriu um tumor maligno no seio esquerdo e isso ceifou a vida dela pouco a pouco num tormento e sofrimento constante devido ao esgotamento que o tratamento causava. Por sorte seu único filho cuidava de buscar e leva-la ao hospital semanalmente, porque Alfredo estava velho e cada vez mais fraco para transitar por essa cidade grande. Até parecia que a doença da esposa também sugava a sua energia pouco a pouco, deixando-o tão doente quanto ela.

E em um desses dias um ônibus cruzou o sinal vermelho e acertou em cheio o carro popular do seu filho, justamente quando ele levava a mãe ao hospital. O motorista disse que ficou sem freio, mas Alfredo nem tinha forças para culpar alguém. Alfredo nem tinha mais forças para quase nada.

Os poucos parentes vivos moravam em outras cidades e tinham pouco contato com ele. Alfredo se isolou dos amigos e assim os foi perdendo um a um, ainda mais quando se aposentou e não convivia mais com os colegas da firma onde trabalhava.

Sua esposa e seu filho praticamente eram as únicas pessoas com quem conversava. E mesmo no prédio onde morava mal conhecia os vizinhos, já que se tratava de um prédio dormitório, onde os jovens trabalhavam ou estudavam durante o dia, voltando apenas para dormir, exatamente na hora que ele também dormia.

Era tímido e extremamente recluso. E assim foi ficando mais e mais, tanto que só tocava o seu velho piano de dia, quando não havia ninguém no prédio e dessa forma não seria importunado por nenhum curioso.

Até o dia anterior.

No dia seguinte Alfredo tocou a sua música favorita “ária na corda sol” de Johann Sebastian Bach (https://www.youtube.com/watch?v=SUR-r5SBhFU). Tocava essa música com tanta frequência que nem precisava da partitura, mas mesmo com tanta prática a cada dia ficava mais difícil executá-la perfeitamente.

O velho pianista se lembrava da esposa e filho e essa bela melodia formava a trilha sonora perfeita para o atual momento que vivia. Ao fechar os olhos os rostos dos dois e todas as boas memórias vinham com mais facilidade e parecia até senti-los na sua presença, sentados ao lado do piano.

O liquido escorria do fundo da sua alma e deslizava por todo o rosto pingando nas teclas amareladas do velho piano. Seus dedos escorregavam pelas teclas úmidas dificultando ainda mais a execução da música.

O poder da musica é tanto que agora ele se via de volta à sua velha casa na década de 50. Suas duas irmãs mais novas ajudavam a mãe a terminar o goulash, prato típico da Hungria, terra de seus ancestrais. O goulash é uma sopa de carne com páprica, pimentão e cebolas e todos esperavam seu pai e o irmão mais velho retornarem do serviço para cearem.

Alfredo nunca mais tomou a sopa desde que sua mãe se foi, mas mesmo assim podia até sentir o gosto apimentado da páprica em seus lábios.

Solidão.

Hoje Alfredo não era mais religioso. Mal rezava e tinha perdido a fé juntamente com a pouca alegria que lhe restava. Mas independentemente disso acreditava que a vida não pode se encerrar no dia da morte. Ele não guardava tantas lembranças boas de seus pais,irmãos, esposa e filho para nada. Toda a beleza dessa vida não pode simplesmente terminar ao virarmos pó.

Tudo é muito grande para encerrarmos e esquecermos tudo após algumas décadas de vida.

Alfredo se apegava a isso e assim desapegava mais e mais do mundo.

Concentrou-se somente na música e nesse momento resolveu esquecer de tudo à sua volta. Era como se os seus dedos fossem regidos por anjos e o som do piano pareceu levá-lo a uma espécie de transe. Parecia meditar e a música o levava até onde as mais belas memórias de sua vida se escondiam em seu cérebro.

Fechou os olhos e apenas ouviu a música.

(ouça)

Mal terminou e já escutou batidas na porta, mas fingiu não ouvir. Certamente era a mulher que acabara de se mudar e mesmo com todo o carinho dela em levar um pedaço de bolo no dia anterior ainda assim não queria conversar com ela. Ainda mais agora que tinha o rosto encharcado e um pesar gigantesco acometia o seu corpo.

Ana Rita voltou ao seu apartamento e escreveu em seu blog anônimo de memórias. Não usava nenhuma rede social e apenas escrevia para desafogar toda a tristeza que sentia. Foi trabalhar pensando no velho pianista do andar de cima e em como a vida pode ser cruel com algumas pessoas. E a melodia belíssima e triste do piano ficou gravada em sua mente.

Essa música Ana Rita conhecia desde o dia que assistiu ao filme “Seven”. Recordava-se da cena onde o ator Morgan Freeman está em uma biblioteca e a música serve como um pano de fundo magistral.

Sequer viu Alfredo, mas ficou imaginando como seria o triste homem. Estava comovida com o pouco que ouviu sobre o velho pianista e estava emocionada com a ternura que a música dele tocou a sua alma.

Decidiu que no dia seguinte faria de tudo para conversar com o vizinho do andar de cima, afinal não podemos deixar passar as oportunidades por que elas podem nunca mais voltar.

***

Alfredo saiu do banho e se barbeou calmamente com todo o esmero possível. Assobiou uma melodia alegre enquanto penteava os cabelos molhados com um pente fino de plástico vermelho. Observou-se no espelho e percebeu que tinha emagrecido demais nos últimos dias. Vestiu o único terno que ainda lhe servia sem folga e arrumou o nó da gravata novamente em frente ao espelho.

Estava elegante.

Todo primor e requinte eram pra recepcionar seus convidados que logo chegariam. Há tempos esperava por essas visitas e ele não queria fazer feio. Acendeu um incenso para perfumar o ambiente e abriu o apartamento para que as visitas não esperassem à porta.

Pegou uma pasta no fundo do armário e dela tirou um antigo papel amarelado pelo tempo com um poema datilografado. Não foi capaz de ler nada além do título do texto em húngaro: Szomorú Vasárnap.

Riu de sua inaptidão em pronunciar o idioma da terra de seus pais.

Junto ao poema húngaro havia uma velha partitura que ele não tocava há algum tempo. Tratava-se da composição de um pianista húngaro chamado Rezso Seress e pela primeira vez em muito tempo tocou o seu velho piano à noite não se importando se os vizinhos iriam ouvir.

Tocou com maestria a música que em inglês recebia o nome de Gloomy Sunday. (https://www.youtube.com/watch?v=uQgpBUqLeVs )

Pegou algumas velhas cordas de piano que tinha guardado há algum tempo e usou-as da mesma forma que Hitler ordenou que usassem contra todos os conspiradores de sua morte no golpe de estado baseado na Operação Valquíria do dia 20 de julho de 1944.

Alfredo estava feliz e em paz consigo mesmo.

 

“Domingo sombrio, com centenas de flores

Eu estava esperando por você querida com uma prece

Uma manhã de domingo, correndo atrás de meus sonhos

Minha carruagem de tristeza retornou sem você

É desde então que meus domingos foram para sempre tristes

As lágrimas são minha única bebida, a tristeza é meu pão

Domingo Sombrio

Neste último domingo, minha querida por favor venha até mim

Haverá um padre, um caixão, um sepulcro e uma mortalha

Haverá flores para você, flores e um caixão

Sobre as árvores florescentes se dará minha última jornada

Meus olhos estarão abertos para que eu possa lhe ver uma última vez

Não tenha medo de meus olhos, eu a estou abençoando mesmo na minha morte

Neste último domingo”.

Szomorú Vasárnap (Gloomy Sunday) de Rezso Seress: A canção húngara do suicídio.

 

Reinaldo da Cunha Yado

A última página – parte 4

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Parte Quatro – Felipe, Carolina Beatriz e Bernardo

Já em posse dos documentos de Bernardo, o policial Felipe seguiu pela estrada sinuosa até o local do acidente onde já deveria ter chegado uma equipe de peritos da cidade vizinha.

A estrada de quase vinte quilômetros tinha sido interditada para facilitar a perícia e evitar que muitos curiosos atrapalhassem o desenrolar das investigações. Ela cortava por algumas montanhas e a subida se fazia por meio de muitas curvas, similar a uma serra no litoral. O trajeto perigoso já havia feito muitas vitimas e Felipe se recordava de uma tragédia de anos atrás quando um ônibus lotado simplesmente não fez uma curva despencando muitos metros abaixo.

Não houve sobreviventes e a comoção foi tamanha que o prefeito decretou luto oficial por sete dias.

Dessa vez se tratava de apenas uma vitima, mas nem por isso a tragédia era menor. Felipe sentiu muito pela amiga de infância que certamente decretaria luto por toda a vida e não apenas por sete dias. Também temeu porque com certeza o corpo seria velado com o caixão lacrado, pois o carro capotou, caiu e se incendiou.

– Que tristeza para a família!

Carolina Beatriz sempre fora meio doida, radical e emotiva demais. Ela precisaria mais do que nunca de apoio nesse momento, pois conhecendo a garota, Felipe achava que ela seria capaz de cometer alguma loucura.

Não queria nem pensar nisso.

Felipe passou pelo carro (ou o que restou dele) que agora não tinha mais o que queimar. Restou apenas uma carcaça similar às de ônibus queimados em protestos estúpidos ao qual acompanhamos na TV.

A tristeza maior é que junto a esses destroços tinha um corpo. E somente um exame de DNA seria capaz de reconhecer o mesmo, já que ele praticamente tinha se mesclado com a carcaça do carro.

Felipe continuou subindo a estrada para averiguar o local onde começou o acidente. Chegando lá constatou que pelo tamanho da marca de pneu queimado no asfalto certamente o rapaz estava em alta velocidade. Como ele não conhecia a estrada deve ter sido enganado pela neblina forte da manhã e quando tentou desacelerar o carro era tarde demais. Com certeza ele não conseguiu completar a curva, bateu no guard rail reforçado que não cedeu, mas a velocidade deveria ser muito alta e fez o carro capotar e descer por muitos metros até atingir a estrada novamente e queimar.

Talvez ele estivesse fumando o que causou a combustão quando o combustível vazou, porque não é muito comum um carro explodir dessa forma em um acidente. Os policiais costumam dizer que carro só explode em filme.

A primeira grande tragédia que Felipe acompanhou de perto foi a da menininha estuprada e afogada. E agora acompanha um jovem cheio de planos queimado. Água e fogo separando sonhos, realizações e cessando a historia do livro da vida de ambos.

Os peritos analisavam a estrada para concluir sobre o acidente e o IML também já tinha chegado para recolher a vítima. Felipe não teria mais utilidade ali, pois era apenas o policial de uma pequena cidade acostumado a ocorrências menores.

E nesse momento o rádio do carro chamou avisando que um grande fazendeiro da região teve o seu moderno jipe Troller roubado agora há pouco. O ladrão devia conhecer a região porque fugiu pela velha estrada da montanha que hoje em dia só é usada por trilheiros e carroceiros.

Seria muito difícil encontrar alguém nessa trilha de mata fechada.

Felipe ligou a sirene e seguiu com o seu dever, esperando encontrar rapidamente o bandido para tão logo consolar Carolatriz diante da tragédia.

Felipe estava tão concentrado na nova ocorrência que desceu acelerado a estrada e nem percebeu um homem que saiu do mato até a estrada pedindo carona.

***

Carolina Beatriz tomou o chá de erva cidreira que sua mãe fez. Tinha gosto de infância. Tinha o sabor de todos os chás e copos de água com açúcar que a sua mãe lhe dava para acalmá-la quando chegava a sua casa chorando com algum novo machucado.

A velha lembrança de outros tempos conseguiu arrancar um sorriso da jovem, mesmo no dia mais triste da sua vida. Estava mais triste hoje do que no dia em que seu avô morreu, porque o velho ficou muito tempo doente e ela acreditou que a passagem dele teria sido um merecido descanso.

Mas hoje, a triste noticia a pegou totalmente desprevenida e impotente. Abraçou a sua mãe e o seu pai e agradeceu por contar com a ajuda dos dois nesse momento tão duro. Logo ela que nunca fora uma filha exemplar e muitas vezes se rebelara contra eles, xingando-os de caipiras e de acomodados por aceitarem viver pra sempre neste fim de mundo sem nenhuma perspectiva de crescimento profissional e financeiro.

Demorou muito tempo para Carolina Beatriz entender que a felicidade, o crescimento e as metas para as vidas são diferentes para cada um. Nem todo mundo sonha em ser doutor, engenheiro ou um importante e rico homem de negócios.

Para muitos a felicidade está em viver de forma simples. Para outros o simples fato de trabalhar sem muita pressão e stress já é a conquista almejada para toda uma vida. E para alguns um simples cargo numa pequena empresa ou um emprego onde possa pagar suas contas e ter tempo livre para a família e amigos é a meta desejada.

Nem todos querem ficar ricos.

Mas todos querem ser felizes.

Seu velho pai conseguiu com muito sacrifício comprar uma boa terra e ali plantava e criava alguns animais. Bastava para ele ser feliz.

Sua mãe ajudava o marido, cuidava da casa e cozinhava doces e pães para vender na cidade. Essa também era a receita da felicidade dela.

O único ponto de tristeza na vida dos dois era o fato de a filha sentir vergonha deles, esquecendo-se da existência de ambos apenas pelo sonho da cidade grande.

Seo João pegou o seu velho radinho de pilha e sentou-se na mesa ao lado da filha e da esposa. Carolina Beatriz era a junção dos nomes escolhidos por eles e para evitar discussão batizaram a filha assim.

O velho sintonizou em alguma estação de rádio e como por em um sinal divino ouviram uma música da dupla Chitãozinho e Xororó:

“Espere minha mãe estou voltando
Que falta faz pra mim um beijo seu
O orvalho das manhãs cobrindo as flores
Um raio de luar que era tão meu

O sonho de grandeza, ó mãe querida
Um dia separou você e eu
Queria tanto ser alguém na vida
Apenas sou mais um que se perdeu

Pegue a viola, e a sanfona que eu tocava
Deixe um bule de café em cima do fogão
Fogão de lenha, e uma rede na varanda
Arrume tudo mãe querida, que seu filho vai voltar

Mãe eu lembro tanto a nossa casa
As coisas que falou quando eu saí
Lembro do meu pai que ficou triste
E nunca mais cantou depois que eu partí

Hoje eu já sei, ó mãe querida
Nas lições da vida eu aprendi
O que eu vim procurar aqui distante
eu sempre tive tudo e tudo está ai”

A família e os verdadeiros amigos se fazem presente em momentos difíceis. Demorou pra Carolina Beatriz entender isso, mas finalmente compreendeu.

Ela se lembrou de um documentário que assistiu ao lado de Bernardo onde a ciência ainda não conseguia explicar o perfeito senso de direção do salmão que nada por centenas ou milhares de quilômetros para voltar ao local onde nasceu. Enfrentam uma verdadeira batalha nesse retorno e muitos concluem o caminho. Outros não conseguem ou ficam nas redes de pesca ou na boca de algum urso pardo.

Tal qual um salmão, Carolina Beatriz sabia que agora voltara para ficar.

***

A intensa luz do sol fez Bernardo perder o velho e a carroça de vista. Essa despedida foi tão estranha quanto tudo o que vinha acontecendo nesse dia, desde o despertar solitário e sem conversar com ninguém, passando pela estrada enevoada, o segundo despertar em um lugar que não conhecia, a total falta de memória, o encontro com o homem nervoso que não o ouviu e a conversa com o velho e simples, porém muito sábio carroceiro.

Tudo foi muito surreal e só faria sentido se ele acordasse de um sonho doido e visse Carolina Beatriz deitada ao seu lado.

Mas tinha o outro lado que ele temia demais: a morte.

Sua mãe era espírita e muitas vezes ele a acompanhou até as casas de oração. Também lera muitos romances e muitas vezes retratavam a experiência além vida de uma forma muito confusa para os recém chegados.

Toda essa confusão que passava por sua cabeça o fez pensar que ele morreu no acidente de carro, exatamente onde via toda a fumaça preta saindo da mata.

E por mais que ele se beliscasse e se sentisse vivo, ainda assim não tinha certeza de mais nada. Tudo era real, mas tão fantasioso que mais parecia um sonho ou uma realidade alterada e perturbada.

Desceu o barranco tropeçando e a cada vez que caía não sentia dor. Não sabia o porquê disso, mas gostava de acreditar que se devia ao fato de estar com a adrenalina lá em cima e não por estar morto. O nervosismo começou a tomar o controle ficando cada vez mais forte o impedindo de pensar de forma racional.

Quando finalmente chegou até a estrada pavimentada viu um carro de policia com a sirene ligada passando rapidamente. Bernardo correu para o meio da rua e gritou.

Gritou ainda mais forte e abanou as mãos esperando ser visto mas não foi.

Novamente temeu pelo pior.

E em mais um devaneio lembrou-se ate mesmo do filme Ghost que tanto reprisava na TV. Recordou das cenas em que o ator Patrick Swayze tentava em vão chamar a atenção dos vivos.

A mente de Bernardo entrou em parafuso e o medo e desespero começaram a tomar conta de si. Ele tinha dois caminhos a escolher e a decisão já tinha sido tomada.

Olhou para um lado da estrada e sabia que a alguns metros dali, logo após a curva estava a fumaça preta que indicava o acidente automobilístico e as respostas que procurava.

Mas por outro lado, a alguns quilômetros descendo estava a pequena cidade à beira lago. Conseguiu até mesmo visualizar o seu amor Carolina Beatriz na pequena casa começando a desempacotar todas as caixas de papelão da nova morada.

Ele não teve duvidas e correndo como nunca havia corrido antes desceu a estrada para o encontro da sua amada.

***

Epílogo

João Acácio nunca gostou de trabalhar, mas apesar disso sonhava em ser rico. Invejava os meninos que na infância tinham todos os brinquedos e ele apenas trabalhava quando na verdade deveria brincar.

Também invejava todas as crianças que tinham mães que vinham busca-los na porta da escola e também ficava com raiva sempre que via um pai ensinando o filho a andar de bicicleta ou a soltar pipa.

João Acácio nunca teve nada disso.

A vida era amarga e o ensinava da pior maneira possível.

Cansou de contar as muitas vezes que foi para a FEBEM e cansou mais ainda de contar as inúmeras vezes que apanhou de alguém, seja mais um bandido ou um policial.

Nunca teve oportunidade de estudar de verdade ou aprender algo e sem a estrutura de uma família decente ele começou a roubar para conquistar as coisas que sempre sonhou. Como não teve infância, a primeira coisa que roubou foi uma bicicleta e sem um pai para ensina-lo a andar caiu logo em seguida, amaldiçoando mais ainda a vida.

Assim que atingiu a maioridade se envolveu com gente mais barra pesada e logo se viu praticando grandes assaltos, tráfico de entorpecentes e sequestros. Mas ao menos se orgulhava de nunca ter matado ninguém.

Foi preso duas vezes, mas o código penal de seu país era uma vergonha e logo estava solto nas ruas novamente. O mais engraçado era que cada vez que ia para a cadeia voltava pior e não melhor, porque uma cadeia superlotada e repleta de inimigos por todos os lados é uma escola do diabo. Escola não, uma universidade com direito a mestrado e doutorado.

João Acácio era um mestre do crime. A começar pelo seu nome idêntico a um dos maiores criminosos da história do país: o bandido da luz vermelha.

João Acácio invadira uma fazenda que vinha estudando há alguns dias. Cidade pequena, entrecortada por montanhas, estrada única de acesso, muitas matas para se esconder, poucos policiais… esse crime seria como tirar doce de criança para um “profissional” como ele.

Estudou os horários de entrada e saída na fazenda e percebeu uma falha na troca de turno dos guardas e atacou.

Não encontrou grandes quantias de dinheiro no cofre e isso o irritou tanto que bateu na cabeça do fazendeiro, desmaiando-o. O trancou no banheiro junto com a sua família amordaçada e fugiu usando o moderno jipe troller que praticamente era zero quilômetro.

Subiu pela velha estrada onde somente um poderoso motor com tração nas quatro rodas o faria. A única alma viva que encontrara pela estrada foi um velho carroceiro, mas bastou uma acelerada mais forte para levantar poeira e impedir o velho de vê-lo ou anotar a placa do veiculo.

Mas a sorte costuma ajudar quem é de bem e o azar caminha ao lado daqueles que fazem mal. Quase que inexplicavelmente dois pneus furaram deixando João Acácio a pé.

Ele blasfemou, jogou o chapéu no chão e chutou os pneus furados extravasando todo o ódio contido no dia: primeiro por ter pouco dinheiro no cofre da fazenda e agora por furar os dois pneus do veículo que poderia lhe render algum dinheiro.

Ligou o pisca alerta do carro apenas por instinto e riu quando viu a luz vermelha: o bandido da luz vermelha!

– Luz vermelha! Perfeita para mais um dia no inferno!

Para despistar a policia que logo viria no seu encalço resolveu descer em direção à fazenda e não fugir montanha acima. Desceu rapidamente pelos barrancos pois estava acostumado à fugas e logo chegou até à estrada pavimentada.

Havia muita névoa e certamente os carros trafegariam em marcha lenta, mas eis que a sorte finalmente sorriu para João Acácio: ele viu um carro vindo devagar e cauteloso pela estrada. Fez sinal de carona e o carro parou.

Pensou que esses caipiras são muito ingênuos, pois quem para pra dar carona a desconhecidos hoje em dia? Acho que esses caipiras acreditam viver em um mundo diferente do real e eles realmente acham que a violência ainda não chegou até os confins do mundo.

– Bom dia, senhor! Carona para a subida?

– Desça do carro, muleque! – João Acácio sacou a arma com a numeração raspada que conseguiu comprar por cerca de cinquenta reais.

O jovem atendeu a ordem e logo se viu com as mãos na cabeça à beira do precipício. Ele tremia e estava em pânico:

– Por favor, não atire! Eu vou me casar em breve. Por favor!

João Acácio não iria atirar, pois se orgulhava de nunca ter matado ninguém apesar de sua extensa ficha criminal. Mas se revoltou só de pensar que esse jovem também teria uma família e provavelmente seria feliz como ele jamais fora.

Por isso ele engatilhou a arma e quando começou a apontar para a cabeça do rapaz ele pulou despencando pela ribanceira.

– Muleque idiota! Eu só iria dar um susto nele!

João Acácio viu o jovem deslizar pela grama do barranco e ficar fora do alcance do tiro.

Entrou no carro, pois queria estar longe dali o mais breve possível. Uma vez lhe contaram que as pessoas em pânico e mergulhadas em um enorme stress costumam perder a memoria já que o choque e o nervosismo são tão grandes que elas se esquecem de algumas coisas.

João Acácio esperava que isso acontecesse com o jovem e esperava mais ainda que ele batesse com a cabeça na queda para não se lembrar do rosto do ladrão de carros.

João Acácio acelerou o carro como se estivesse em uma estrada reta, plana e sem névoas.

Acelerou tão rápido que sequer viu a próxima curva.

***

Por vezes percebemos que somos ligados a outras pessoas até mesmo por pensamentos. Inúmeras são as vezes que pensamos em algo ao mesmo tempo ou ainda pegamos o telefone e quando começamos a discar ele toca revelando essa pessoa no outro lado da linha.

Sabe quando você está conversando numa roda de amigos e dois dizem a mesma coisa exatamente ao mesmo tempo? Ou ainda quando criança e você espera sua mãe voltar do mercado torcendo para que ela traga um pouco de chocolate e mesmo sem ter pedido a ela o chocolate está lá.

Eu acredito que temos ligações com pessoas especiais a nós.

E mesmo que não haja uma explicação cientifica para tal, certas coisas simplesmente não precisam ser explicadas.

Carolina Beatriz e seus pais permaneciam sentados na mesa da cozinha ouvindo o velho radio de pilha quando um vento entrou pela casa e soprou em seu rosto. Seus cabelos coloridos se bagunçaram e ela sentiu paz com isso.

A brisa trouxera um perfume que ela reconheceu no mesmo instante e rapidamente ela se levantou e revigorada por esse vento saiu correndo da casa. Seu velho pai João desesperado levantou o mais rápido que pode e tentou correr atrás da filha temendo que ela pudesse cometer alguma loucura:

– Estou bem, pai e mãe! Não se preocupem! Eu juro!

Os velhos foram deixados para trás enquanto Carolina Beatriz corria rapidamente pelo meio da rua da pacata cidade. Ela teve um pressentimento bom e nada agora iria impedi-la de correr o mais rápido possível até o lago, de onde iniciava a estrada que cortava as montanhas.

Corria descalça e as pedras das ruas não pavimentadas não cortavam ou feriam seus pés delicados de moça da cidade grande. Um sorriso no rosto transmitia paz aos poucos que ela encontrou pelo caminho.

O policial Felipe viu Carolina Beatriz passar correndo e a principio se preocupou. Mas logo sentiu uma aura de boas energias emanando da garota e vendo-a correr descalça conseguiu visualizar a criança Carolatriz correndo e brincando de pique esconde pelas ruas como nos tempos de infância.

Felipe sorriu. A garota estava em paz e feliz.

***

Bernardo sentiu uma brisa batendo em suas costas dando mais impulso para a sua corrida tal qual quando uma vela de barco é içada pelo vento. Desceu correndo a estrada a toda velocidade e mesmo todo o seu sedentarismo dos últimos meses foi incapaz de acabar com seu fôlego.

Contornou a última curva e entendeu o porquê de não ter encontrado nenhum carro no caminho: a estrada havia sido interditada com cones e fitas plásticas usadas para isolar a cena de um crime.

Passou pelos poucos curiosos que se encontravam ali e logo se viu correndo na estrada que beirava o grande lago. O sol refletia toda luz nas águas e por isso ele não pode ver a pessoa que vinha correndo ao seu encontro.

Carolina Beatriz olhou para a estrada e com o sol vindo de encontro também não conseguiu identificar a pessoa correndo na sua direção.

Mas também não era necessário.

Porque o verdadeiro amor não precisa dos olhos, mas apenas do coração.

E o verdadeiro amor não nos engana jamais.

E eles tinham certeza disso.

Reinaldo da Cunha Yado

A última página – parte 3

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Parte três – Felipe e Bernardo

 Felipe era um dos poucos policiais da pequena cidade de pouco mais de três mil habitantes. Costumava dizer que o seu trabalho era o mais tranquilo do mundo, pois quase nunca havia alguma ocorrência que fosse além de alguma briga de bêbados no bar.

 Nos finais de semana ainda tinha um pouco mais de trabalho porque muitas pessoas iam até a cidade para nadar no grande lago. Mas ainda assim as ocorrências continuavam sendo meras brigas de bêbados.

 Felipe nasceu e foi criado na pequena cidade e a única vez que morou fora foi durante pouco mais de seis meses quando fez o curso da policia militar. Conhecia todas as pessoas dali e isso ajudaria em muito o seu trabalho.

 Mas o fato de conhecer a todos também o colocava em uma posição difícil quando tinha que tratar de assuntos delicadíssimos e não poderia se envolver sentimentalmente.

 Foi assim quando trabalhou dois dias ininterruptos vasculhando o grande lago até encontrar o corpo de uma garotinha de cinco anos, filha de um conhecido. O choque foi terrível e até hoje Felipe têm pesadelos ao se lembrar do corpo inchado e putrefato da garotinha escondido em meio a uma espécie de mangue, em um local afastado do lago.

 Desejou que a garotinha “apenas” tivesse se afogado, mas chorou quando encontrou as roupinhas rasgadas em uma mata próxima ao lago. Chorou mais ainda quando mais tarde descobriram sinais de violência sexual na criança.

 Quando estava em serviço desejava chegar à sua casa todos os dias para chorar sem a farda. Isso tudo para não demonstrar fraqueza diante de todos aqueles que esperavam que ele fosse o policial durão que fosse dar cabo de qualquer bandido que por ali aparecesse.

 Ele era humano.

 Mas não seria nem um pouco humano se encontrasse o culpado por tamanha barbárie.

 Lembrou-se de quando era uma criança e sempre brincava no lago com Carolina Beatriz e os outros amigos da escolinha. Pensou em todo o caminho da pequena garotinha que fora interrompido. Ela teria sido uma mãe exemplar? Teria sido uma médica pediatra que faria plantões nos fins de semana apenas para cuidar das crianças?

 Ou talvez uma costureira que bordaria vestidinhos com franjinhas coloridas para as crianças dançarem quadrilha na quermesse anual da cidade. Ou quem sabe faria pastéis e doces para vender nas barracas, como a Dona Zenaide que sempre dava balas a mais para todas as crianças que compravam doces.

 – Veja Carolatriz! Comprei um saquinho de balas e a Dona Zenaide me deu mais um pirulito de brinde! – Felipe eufórico já estava com a boca suja de doce.

 -Jura? – e os olhos da garota brilhavam como se fosse manhã de Natal – Vou pedir dinheiro para o meu pai! Espere aqui!

 Felipe lembrou-se de sua infância e tentou se colocar no lugar da garotinha assassinada. Quantos sonhos foram interrompidos? E quantas pessoas morreram juntos com ela? Pois certamente os pais, avós, tios e tias da menina perderam uma centelha da vida ao velar a criança em um pequeno caixão de madeira lacrado.

 – Parece uma caixa de boneca. Por que permitiu isso, Deus?

 E no dia de hoje Felipe teria que novamente ser frio porque uma tragédia caiu sobre conhecidos. Não conhecia o namorado de Carolina Beatriz, mas tinha um carinho enorme pela garota e sua família. Os pais dela sempre desejaram que ela voltasse para perto deles e sempre imaginaram a garota se casando com Felipe, já que as famílias eram bem próximas.

 E justo agora que ela voltou para a cidade, logo no segundo dia o namorado morre em um acidente de carro. Testemunhas identificaram o modelo e a cor do veículo e um deles ainda anotou a placa.

Isso tudo foi fundamental para a identificação do carro porque o pior ainda estava por vir…

Novamente a morte surgia de forma horrenda já que no capotamento morro abaixo o carro se incendiou carbonizando o rapaz.

E Felipe omitiu esse trecho no relato para a amiga.

– Que tragédia.

***

 Carolina Beatriz estava um pouco mais calma, mas era evidente o estado de choque da garota. Estava muda, pálida, fria, sem brilho nos olhos e ainda permanecia incrédula diante de tudo.

Infelizmente o trabalho de Felipe o transformou em um corvo negro trazendo péssimas notícias no dia de hoje. Ele chamou os pais de Carolina Beatriz para ajudar no consolo porque realmente estava preocupado com ela.

 – Carolatriz, eu sei que é difícil, mas você teria algum documento do Bernardo? Eu preciso voltar ao local do acidente.

 – No quarto, nas caixas de papelão…

 Diante da apatia da filha, a mãe deu um cutucão no pai:

 – Venha Felipe, eu te ajudo a encontrar. – respondeu o pai de Carolina Beatriz.

 Os dois atravessaram a pequena sala de tacos de madeira, passaram pelo corredor até o quarto que dava com a janela no quintal. Seo João, o pai de Carolina Beatriz, bem se lembrava desse quarto e de quando acordava cedo e abria a janela para observar a montanha. Abria-a rezando para que o tempo estivesse bom para poder brincar.

– Eu sinto muito, Seo João.

 – Obrigado, garoto. Todos nós sentimos.

 E os dois começaram a examinar algumas caixas de papelão, mas apenas encontravam livros e roupas. Chamou a atenção de Felipe um pequeno livrinho de bolso com a imagem de uma bela árvore sendo iluminada por um raio de sol brilhante: Agenda Cristã – Chico Xavier pelo Espírito André Luiz.

 – O rapaz era espírita. – Seo João pegou o livrinho de Felipe e se arrependeu porque quase nada sabia do rapaz que poderia ser o seu genro. E agora era tarde demais para conhecê-lo melhor.

 – Sabe rapaz, acho que eu também posso me considerar um espírita.

 Felipe olhou para o velho com certa incredulidade, pois bem se lembrava de vê-lo todos os domingos de manhã na igreja da praça central da cidade. Felipe ia à missa quando fazia catecismo e tão logo terminava a celebração ele e as outras crianças brincavam de correr pelas calçadas da praça. A brincadeira sempre durava alguns minutos até cessar a conversa de seus pais com o padre à porta da igreja: os adultos sempre debatiam os acontecimentos semanais na cidade no pós missa .

– Moramos numa cidade pequena e ainda há pessoas que julgam demais qualquer religião que não seja a católica.

 – É verdade. Nos dias que perco a missa sinto que as velhinhas da igreja me queimam com os olhos! – Felipe forçou um sorriso – E agora temos até mesmo uma igreja evangélica aqui!

 – Respeito – o velho deu um tapinha nas costas do policial – Respeite os que pensam diferente de ti. É tão fácil e ao mesmo tempo tão difícil isso.

 Felipe abriu a primeira página do livro e viu uma pequena dedicatória escrita com caneta azul. A letra era minúscula, mas pode ver que se tratava de uma mensagem da mãe de Bernardo:

 “Meu amado filho, lembre-se de orar e buscar sempre aprender com os ensinamentos desse pequeno livro. Nós colhemos frutos e espinhos de outras vidas e por isso nunca devemos nos achar injustiçados ou demasiadamente privilegiados. Seja justo e trate todos de forma igual e nunca se ache melhor que os outros. Também procure sempre entender os que erram muito, pois são eles que mais precisam da sua compreensão. E por fim, lembre-se sempre que nossas vidas não terminam no fim desta”.

 – Feche o livro, Felipe.

 O rapaz voltou para a realidade e conteve uma lágrima que começou a se formar no canto do seu olho. Lembrou-se de sua mãe e todo o carinho que ela lhe deu. Não entendeu por que  o velho pediu para fechar o livro, mas ainda assim o fez.

Seo João continuou:

 – Agora feche os olhos, faça uma breve oração, abra numa página qualquer e leia a primeira mensagem que fixar o olho.

 O policial abriu o pequeno livro na pagina 63 e leu:

 – “A dor dilacera. Mas aperfeiçoar-nos-á o coração, se buscarmos aproveitá-la”.

 Seo João baixou a cabeça e suspirou – Viu? Como sempre uma mensagem pontual.

 Felipe pensou na sua mãe e na mãe da pequena garota morta e estuprada. Quão difícil deve ser perder um filho! Ficou muito emocionado em pensar no sofrimento que aguardava a mãe de Bernardo. Que trágico!

Começou a procurar nas caixas do outro lado do quarto e quando finalmente encontrou o RG de Bernardo, Seo João o chamou para ver que uma das caixas de Carolina Beatriz estava toda suja porque um vidrinho de tinta abriu se derramando por completo.

 – Tinta vermelha derramada. O prenuncio da tragédia.

A frase escrita pela mãe de Bernardo no pequeno livro ecoou na cabeça de Felipe:

“E por fim, lembre-se sempre que nossas vidas não terminam no fim desta”.

 ***

 Bernardo abriu os olhos e a claridade do sol o fez fechar novamente. Encheu os pulmões com ar e teve a impressão que jamais respirara um ar tão puro. Sentia uma leve dor na cabeça e a sua pele queimava um pouco, mas nada que chegasse a incomodar.

Não sentia fome, sede ou frio.

 Passou a mão pela grama fresca e o toque foi prazeroso ao tato. Não se lembrava de onde estava e nem o porquê de estar ali, mas estava em paz.

 Abriu os olhos novamente e com uma nuvem cobrindo o sol conseguiu ver tudo com mais clareza: estava em um bosque um pouco úmido e havia apenas uma pequena trilha em meio às arvores e plantas.

 Escutou o canto afinado de alguns pássaros que passaram voando sobre a sua cabeça indo exatamente na direção da trilha que se iniciava justamente onde duas grandes árvores uniam as suas copas, como se fosse um umbral delimitando o caminho.

 Caminhou por alguns minutos na trilha enquanto tentava se lembrar de como havia parado ali. Pensou estar sonhando, mas o cheiro de mato, o vento batendo na cara e o orvalho das plantas que o molhava por vezes o fez acreditar que tudo era muito real.

 Normalmente estaria em pânico por se encontrar em um lugar desconhecido e andando sem rumo, mas estranhamente estava sereno. E a paisagem nas montanhas não tinha como deixa-lo nervoso.

 O barulho das folhas das arvores chacoalhando com o vento e o canto de pássaros só foi quebrado quando ouviu a voz de um homem amaldiçoando tudo:

 – Eu só posso estar no inferno!

 E o homem jogou o chapéu no chão enquanto chutava o pneu de um moderno jipe com tração nas quatro rodas.

 – Inferno! Inferno!

 Bernardo estava em cima de um barranco e espiava por detrás de uma arvore o homem nervoso. Pensou em ajuda-lo, mas ele parecia ter uma energia tão negativa ao seu redor que deixou Bernardo quieto. Sem contar que ele parecia conhecer esse homem de algum lugar e ele lhe causava medo.

O homem ligou a luz de alerta do jipe e riu quando viu que ela era vermelha:

 – Luz vermelha! Perfeita para mais um dia no inferno!

 Bateu a porta do veiculo com força desproporcional, apanhou o chapéu ao chão e desceu em linha reta, abandonando a estrada que ziguezagueava pela montanha.

 – Hey! Aonde você vai? – Bernardo finalmente dirigiu a palavra ao homem nervoso.

 – Hey!

 Mas o homem não ouviu. Talvez por sorte não o ouviu, pois ainda não se lembrava de onde o conhecia e tampouco se lembrava do por quê ele lhe causava tanto medo.

Bernardo tomou coragem e insistiu em chama-lo. Ainda assobiou fazendo tanto barulho que até mesmo uns pássaros que estavam na árvore se assustaram.

 Mas o homem não deu nenhuma atenção e seguiu descendo até sumir de vista.

Foi como se Bernardo não estivesse ali.

 Bernardo desceu o barranco até a pequena estrada onde estava o jipe. Era um modelo moderno que em nada parecia com os jipes que ele estava acostumado a ver em exposições e em filmes militares. Olhando bem por cima dava pra perceber que esse jipe teria o conforto de um sedan, mas mesmo toda essa tecnologia não foi capaz de evitar o contratempo que irritou o seu dono: dois pneus furados. Esse homem realmente estava com muito azar porque os pneus eram muito grossos e pareciam indestrutíveis.

Pareciam.

 Assim como em muitas vezes pensamos ser indestrutíveis em nossas vidas: uma bebida a mais não nos deixará bêbado, uma acelerada no semáforo amarelo não nos fará bater, um vacilo com a namorada não terminará a relação, um trago e um cigarro não nos viciará e dirigir com sono em uma pista sinuosa nas montanhas e repleta de neblina não acarretará em um acidente.

 Bernardo foi até o limite da pequena estrada e procurou o nervoso dono do jipe, mas não encontrou. Com muitas árvores por ali, certamente ele já sumira por algum caminho abaixo das copas das árvores. Até se espantou com a velocidade que provavelmente o homem descia em um terreno muito íngreme e repleto de pedras e barrancos.

 Totalmente desnorteado Bernardo sentou à beira da estrada na sombra de uma árvore e ficou ali por muito, mas muito tempo.

 Não sabia o que fazer, não sabia para onde ir e nem por que estava ali. Não conseguia se lembrar de nada e por isso chorou.

 Chorou tanto que, ainda meio grogue apagou. Não sabia se havia sonhado ou se tinha delirado acordado com o dono do jipe que lhe causava medo.

Podemos ser velhos, adultos, independentes e sábios, mas nas horas em que estamos perdidos sempre lembramo-nos de nossas mães:

 – Mãe, me ajude!

 – Dia!

 Bernardo voltou o olhar e percebeu que um velho subia a estrada calmamente sobre uma carroça.

 – Bom dia! – e notou que o velho era um típico homem do interior, com uma camisa desabotoada até o peito, calça jeans surrada e uma botina simples de couro. Sua velha carroça de madeira estava vazia com um cavalo marrom atrelada a ela.

 – tá com pobrema com seu carro?

 – Na verdade ele não é meu. O dono desceu por aqui. – e apontou a enorme descida da montanha.

 – Óia, o rapai então tá com pressa! – o velho tirou o chapéu e coçou os ralos cabelos brancos da cabeça – Descer por aí é rápido, mas não arrisco meu lombo aí não. A montanha é traiçoeira, filho!

 – Imagino que seja. – Bernardo disse isso sem se recordar do porque achava a montanha traiçoeira. Aliás, ele ainda não se recordava de nada.

 – O senhor poderia me dizer que lugar é esse?

 – Eu chamo de céu! Pelo menos pra mim é. – e o velho desceu da carroça. – tá perdido, é?

 – Não sei. Acho que sim. – e Bernardo estranhou estar no céu sendo que agora de pouco o homem do jipe se dizia no inferno.

 – Tendeu. Óia, lá pra riba tem uma estrada maior. Darsvei cê acha carona lá. Eu te levo até lá!

 Bernardo aceitou a oferta e quando ameaçou subir na carroça o velho o reprimiu:

 – Espere cabá essa ribanceira, filho! Assim não judia do cavalo véio!

 Bernardo sentiu até vergonha ao ver que o velhinho estava andando ao lado da carroça e ele por preguiça tentou subir no veiculo.

 – Esse jipe aí deve ser de argum dono das fazenda da região. Sempre com pressa, nervoso e falando nos telefone móvel. Não dão bom dia e ainda aceleram o carro quando passam perto da gente e levanta uma poeira só! – o velho parou pra respirar.

 – Isso quando não ficam com aquele negócio nas oreia ouvindo música. E nem respondem quando chamamos.

 Acho que foi por isso que o homem nervoso não me ouviu chamando agora há pouco. – concluiu Bernardo.

 – Esse povo da cidade grande acha que é dono de tudo. As terra da montanha não devia ter dono não!

 Caminharam alguns metros e quando o caminho deixou de ser tão íngreme subiram na carroça que andava sem pressa alguma. Bernardo se encantava com a paisagem do lugar e viu todo o contraste entre o homem apressado dono do jipe e o velho calmo e sereno em sua carroça.

 – Meu nome é Bernardo!

 – Prazer, Bernardo. Meu nome é Lourenço.

 Lourenço já se aproximava dos oitenta anos de idade, mas o trabalho braçal e o ar das montanhas lhe deram muita saúde e longevidade em sua vida. Parecia ser mais saudável que o homem nervoso do jipe, que deveria ter metade da idade.

 Lourenço não serviria para morar em uma cidade grande porque não sabe viver de forma apressada. Ele gostava de preparar o almoço calmamente e sentar para comer. Apenas para comer, pois nunca almoçaria em frente à televisão ou de pé em uma lanchonete, “inalando” a comida para ganhar mais tempo no horário de almoço.

 Lourenço gostava de curtir cada etapa do dia, desde o nascer do sol até o anoitecer. Saberia curtir cada dia da semana com suas vantagens e desvantagens, cada estação do ano e consequentemente cada etapa da sua vida. Ele não lamentaria algo do passado da mesma forma que não perderia o sono com algum problema que ainda não chegou.

 – Tudo no seu tempo, filho!

 Como tudo teria o seu tempo certo, Bernardo parou de se preocupar em saber onde estava e porque estaria ali. Isso não importaria agora e quando chegasse à estrada maior que Lourenço dissera ele veria alguma placa e buscaria informação. Agora queria apenas curtir o passeio de carroça, conversar com o senhor e observar a paisagem.

 – Veja filho! O grande lago! A vista daqui de cima é muito bunita!

 Bernardo se encantou com a visão do lago. Os raios de sol matutino refletiam nas águas e ele teve a impressão de sentir até uma brisa molhada quando o vento bateu em seu rosto. Aquela pequena cidade na beira do lago… de onde conhecia isso?

 E então logo após uma curva na estrada eles viram fumaça saindo da mata. Mas não uma fumaça natural, pois era negra e feia de se ver, como se fosse tóxica.

 – Enquanto subia a montanha eu escuitei o baruio das sirene das ambulância da cidade vizinha. Acho que teve um acidente de carro na estrada maior.

 E de repente Bernardo se lembrou de onde estava. Lembrou-se do lago, da estrada, das montanhas e da névoa na pista.

 E agora sentia sua cabeça doer de forma absurda e a pele ardia como se tivesse sido queimada. Toda a paz foi embora, o seu coração acelerou e a pressão arterial subiu. O lugar ainda era belíssimo, mas não aparentava mais ser o paraíso de minutos atrás.

 Suava frio e sentia dores.

 Isso o fez ter certeza que não estava no céu, como disse Lourenço. Estava mais para o inferno que o homem nervoso blasfemou enquanto chutava os pneus furados do jipe.

Por que nos arrependemos das coisas quando não há mais volta? Por que devemos errar e perder algo para somente depois disso dar valor? Por que passamos a festa toda sem tirar a garota pra dançar ou puxar papo com ela? De repente nos vemos voltando pra casa sozinho e arrependido por ter deixado a oportunidade passar.

Bernardo temeu e o simples pensamento de já ter deixado a vida passar o apavorou.

 Ele agradeceu ao velho e desceu da carroça correndo em direção à fumaça preta. Tinha pressa em chegar, mas ao mesmo tempo estava apavorado de encontrar lá algo que o traria a outra realidade. Exatamente como quando fazemos um exame médico e por mais que estejamos curiosos com o resultado, temos medo no que o resultado irá acarretar.

– Filho!

 Bernardo voltou o olhar para o velho na carroça:

 – Nóis nunca sabe quando é a úrtima página do livro da vida. – o velho tirou o chapéu como em sinal de respeito e de repente começou a falar um português correto e claro:

 – Devemos apenas aproveitar o tempo que nos é dado. Fazer o que é correto, não importando se ficaremos pra trás com isso, pois quando chegar à última página do livro das nossas vidas não poderemos mais corrigir as nossas falhas.

 Bernardo tremeu como nunca. E o velho continuou:

 – Depois da última página só poderemos corrigir nossos erros em outro livro. Fique em paz, garoto.

 E assim o velho seguiu adiante e nesse momento o sol saiu de trás de uma nuvem impedindo que Bernardo enxergasse a carroça se distanciando dele.

 Ele permaneceu ali parado por uns instantes, totalmente sem rumo. Às vezes as palavras nos ferem como uma espada.

 Bernardo estava cansado e com sono porque não tinha tomado café ao acordar. Era incrível o poder do café sobre ele, mas resolveu deixar os últimos grãos da bebida para a sua amada.

 Sentiu os olhos úmidos ao se lembrar da mulher que amava

 Medo.

Mais do que nunca sentiu medo.

– Carolina Beatriz!

 ***

continua…

Reinaldo da Cunha Yado

A última página – parte 2

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Parte dois – Carolina Beatriz e Bernardo

Carolina Beatriz conheceu o seu namorado Bernardo quando morou na capital. O rapaz cursava engenharia agronômica e isso foi até curioso porque por mais que ela tentasse se enraizar na cidade grande foi se apaixonar logo por um cara que adorava o campo.

Bernardo já fez o caminho inverso: era da capital e cursava a faculdade no interior, mas todo fim de semana voltava para a cidade natal. Mas sempre teve o sonho de se mudar para a roça um dia.

Como em boa parte dos relacionamentos se conheceram através de amigos em comum e pouco a pouco foram se tornando mais íntimos. Tornaram-se amigos e logo melhores amigos.

Numa noite o pessoal se reuniu na casa de Bernardo e fez uma saideira para uma festa. Justamente nesse dia Carolina Beatriz bebeu além da conta e teve que abortar o segundo tempo da noite. Todos foram para a balada, mas o rapaz ficou em casa cuidando da garota que despertava seus desejos.

 Ela sentia vergonha pelo vexame, mas também se sentiu muito aliviada por saber que mais alguém se importava com ela e não apenas estava atrás da curtição de uma noite. Lembrou-se de Felipe e do dia que ele cuidou dela com o maior carinho que alguém já tinha feito. Ainda era uma adolescente rebelde e aquele tinha sido o primeiro porre que tomou. Jurou que nunca mais iria beber, assim como todos fazem quando acordam de ressaca no dia seguinte.

Hoje mais madura admitiu que fora grossa e burra demais com o velho amigo do interior – amanhã mando uma mensagem para ele no facebook.

Carolina Beatriz e Bernardo ficaram assistindo TV até tarde nesse dia:

 – Plena noite de sexta e nós aqui assistindo o Globo Repórter! – Carolina Beatriz aos poucos melhorava conforme o seu Gatorade ia terminando.

 – Pelo menos economizaremos uma grana, Carol! – e sorriu de uma forma tão sincera que acalmou a garota e a fez perder um pouco da vergonha pelo exagero alcoólico.

 – Me desculpe por estragar a sua noite, Bernardo.

 – Você não estragou. Você nunca estraga.

 E pela primeira vez ambos pensaram em se beijar, mas o receio foi maior porque eles acreditavam que a linha entre a amizade e o namoro é uma fronteira perigosa demais para se atravessar. E depois de ultrapassar essa linha não haverá volta, pelo bem ou pelo mal.

 Justo nesse dia o Globo Repórter passava um documentário sobre a Faixa de Gaza e somente meses depois descobriram que os dois pensaram no perigo (parecido em partes) que era cruzar a zona da amizade. Por isso hesitaram e nesse dia nada aconteceu.

 Mas no fim de semana seguinte conversaram o suficiente para entender o quão estranho é o papo do “não podemos nos beijar porque somos amigos”.

É estranho porque parece ser completamente normal beijar uma pessoa que você sequer sabe o nome em uma festa, mas beijar uma pessoa que você conhece e confia não pode porque corre o risco de estragar a amizade.

 Você pode ficar com um desconhecido que pode ser um psicopata, maníaco, ladrão ou mau caráter, mas ficar com uma pessoa que você conhece perfeitamente não pode, afinal vocês são amigos.

 É, realmente a linha da amizade é perigosa demais para ser atravessada. E realmente não tem volta porque muitas vezes um bom amigo não se reflete num bom namorado. E talvez o preço por arriscar esse algo a mais seja perder até mesmo o que já possuía.

 Mas quase tudo na vida se baseia em riscos e os que não apostam nada, nunca conseguem coisa alguma.

 Carolina Beatriz e Bernardo arriscaram a amizade em troca do desejo crescente de ambos. E não se arrependeram, porque a amizade somente melhorou ao ponto de ter a certeza que se um dia rompessem o namoro ainda assim permaneceriam amigos. Ao menos era isso que pensavam e desejavam.

 E em um namoro ou casamento a eternidade não importa, mas sim o tempo em que foram felizes. “Que dure uma semana, mas que seja intenso”- esse era o lema dos dois.

 E essa “semana” durou algumas primaveras.

 Ou alguns verões, já que a relação sempre foi quente.

 Namoraram alguns anos e ela se sentia realizada. Combinavam em quase tudo e quando não, ao menos se respeitavam. Compartilhavam vários momentos e ela ouvia as bandas que ele gostava de ouvir e vice versa, mesmo um não dando o braço a torcer pelas preferências musicais do outro.

 Quando brigavam ambos se sentiam muito mal e o mais breve possível pediam desculpas e esqueciam por completo esse atrito. Carolina Beatriz esteve com outros caras, principalmente no começo do namoro, mas isso serviu apenas para ver que ela não precisaria mais de outros caras. E ela também nem queria saber se ele já esteve com outras durante o namoro.

Carolina Beatriz comprou um chip da operadora de celular de Bernardo e todas as noites depois da onze horas ela trocava o chip do telefone apenas para conversar de forma ilimitada com ele. Essas conversas acalmavam a ambos e frequentemente um dos dois dormia no meio.

 Pensaram em dividir o mesmo teto e a oportunidade veio logo após ele se formar: Bernardo recebeu uma proposta de emprego na cidade vizinha à cidade natal de Carolina Beatriz.

 Nunca mais imaginou voltar a viver ali, mas o amor nos prega peças, pois mudamos os conceitos e planejamos novas rotas e caminhos a serem perseguidos. Na verdade viu até um desafio nisso tudo: testar a capacidade que teria em mudar totalmente o curso da sua vida e novamente transformá-lo na forma mais agradável de viver.

 Pensou que boa parte dos casais enfrenta essa guinada na vida quando uma gravidez inesperada aparece. No começo piram e é necessário fazer as contas e planos, mas no final tudo acaba se ajeitando se o amor prevalece.

 Talvez o real poder do verdadeiro amor seja esse.

 O verdadeiro amor nos faz mudar e entender que o importante é com quem se está e não onde está.

 Acho que esse amor nos faz querer viver as coisas dos outros também e não somente as nossas.

 Carolina Beatriz finalmente entendeu tudo isso.

 ***

 Bernardo nunca acreditou que iria morar junto com uma namorada antes dos trinta anos de idade. Acabara de se formar com louvor e a proposta de emprego se deu por indicação de um professor da faculdade que viu as qualidades do jovem como ideais para o emprego.

 Bernardo iria cuidar da parte de planejamento de solo, irrigação e drenagem de uma grande usina de cana de açúcar no interior. Trabalharia junto de um agrônomo experiente e sem duvida alguma isso serviria para o seu crescimento dentro do ramo.

 No primeiro momento não aceitou o emprego porque temeu abandonar Carolina Beatriz. Namoraram praticamente durante todos os anos da faculdade e nunca sentiu por outra garota o que sentia por ela.

Ela trabalhava com design gráfico, vivia falando sobre artes e tinha toda a filosofia hippie de paz e amor na ideia. Pintava quadros e enchia a sua kitnet com telas, tintas e pincéis. Também fazia filtros dos sonhos e sempre caçava penas, pedras e galhos para fazer mais algum. Dizia-se rastafári e vira e mexe falava de Jah, mas na verdade não era religiosa o suficiente para tal.  Acho que ela tinha todo esse papo era porque ouvia muito Bob Marley, mas nunca fez um dreadlock sequer:

 – Meu cabelo é muito fino e tá sempre colorido!

 – Também prefiro ele assim, Carol!

 Carolina Beatriz possuía tatuagens nos braços e pernas, piercings e o cabelo colorido com uma nova cor a cada quinzena a fazia mais parecer uma rockeira, apesar de todo o seu apreço pela música de Bob Marley e os seus “trampos” como uma hippie de praia.

 Bernardo era o oposto.

 Nunca faria uma tatuagem no corpo, não tinha nenhuma aptidão para arte alguma e só queria saber de andar a cavalo nos fins de semana ou assistir futebol tomando uma cervejinha com os amigos.

 A sua aptidão para as artes era tamanha que sempre conseguia tirar Carolina Beatriz do sério quando pegava o bongo dela. Ela não conseguia acreditar na total falta de ritmo e sincronia do rapaz.

 Por sorte a sincronia no amor era excelente, mesmo com todas as diferenças entre eles.

 Bernardo quis o emprego, mas também queria Carolina Beatriz. E ela quis Bernardo e pouco estava ligando para o emprego dela, tanto que para viver com seu amado iria trabalhar como freelancer, pegando trabalhos até mesmo da agência onde trabalhou. Também poderia vender alguns quadros (o que achava difícil) e ainda arrumar um emprego na cidade vizinha assim como Bernardo.

 Economizariam o dinheiro da moradia já que ela herdou a casinha que era do seu avô. E a cidade onde Bernardo trabalharia ficava a menos de vinte quilômetros, portanto iriam morar na pequena cidade natal de Carolina Beatriz.

 Na verdade ela sempre quis morar na casa do seu avô. A pequena casa com uma cerquinha de madeira e um jardim na frente a fazia lembrar as moradias de filmes e seriados americanos. No fundo uma frondosa arvore onde o avô pendurou um balanço que a divertiu por toda a infância. E a pequena horta continuaria ativa já que Bernardo iria sempre mexer com a terra.

 Ele poderia arrumar um cavalo já que havia muitos sítios nas redondezas e ela teria novamente um cachorro para passear todo fim de tarde em volta do lago.

 Seria uma vida bem calma para uma garota que anos atrás saiu da cidade justamente em busca do sonho da cidade grande. Realmente o amor nos faz mudar muita coisa.

 ***

Bernardo iniciou o trabalho e na primeira semana ficou hospedado em um hotel barato. Encaixotou as suas coisas que seriam levadas para a nova casa junto com as de Carolina Beatriz que só iria para a casinha na sexta feira pela manhã com o pessoal da transportadora.

 Nesse dia ela fez uma faxina na pequena casa e isso tomou muito mais tempo do que esperava. Acho que ela ficou mal acostumada a limpar a sua minúscula kitnet que até se esqueceu do trabalho que é limpar uma casa um pouco maior. Ainda mais uma casa que há alguns meses estava fechada juntando poeira.

  No final do dia estava tão cansada que não teve coragem de começar a desempacotar as inúmeras caixas espalhadas pela casa. Apenas estendeu um lençol na cama, ligou a geladeira e conectou o botijão de gás no forno.

Tomou um banho, passou na casa dos seus pais, foi até a padaria e comprou um pacote de bolachas e uma caixinha de leite para o café da manhã do dia seguinte. Também comprou uma pizza de frango com catupiry e mais uma coca cola de 2 litros:

 – O primeiro jantar na casa nova não custou nem vinte reais. Essa é uma das vantagens de viver no interior!

 Esperou Bernardo chegar, jantaram e fizeram amor pela primeira vez na casa nova. Depois foram de cômodo em cômodo para tentar visualizar como seria a disposição dos móveis e de todas as tralhas.

 – Aqui no fundo da casa tem um espaço perfeito para o meu ateliê! Venha ver, querido! – e a moça empolgada puxou Bernardo pela mão.

 – E como tem um enorme vitral a iluminação será excelente para as minhas pinturas!

 – Podemos colocar alguns banquinhos ao lado da árvore e ali no outro canto será o lugar ideal para o meu cantinho do churrasco! E tem a horta! – o brilho nos olhos, a agitação e a fala acelerada entregavam toda a empolgação de Bernardo.

 Nessa noite dormiram despreocupados. Quanto tempo faz que você não dorme dessa forma? É difícil nos desligar por completo de tudo e mais difícil ainda é não termos algum problema para atrapalhar o nosso repouso. Mas nessa noite tudo conspirou para o sono perfeito.

Bernardo se levantou antes do sol e tentou ser o mais silencioso para não acordar sua amada. Tomou um copo de leite puro e gelado e com Carolina Beatriz dormindo dessa vez ele não a ouviu dizer: “Como que você consegue tomar leite puro”?

Comeu algumas bolachas e uma manga que colheu em uma arvore da casa vizinha. Pensou no quão incrível é ter arvores frutíferas em frente à casa! Isso nunca seria possível em uma cidade grande.

 Decidiu que tão logo arrumaria um pé de goiaba para plantar no fundo da casa e em menos de dois anos teria mais sombra e a sua fruta predileta!

E ao beber leite e logo após comer manga ele acabou de encarar o destino diante de um dos mais famosos chavões do interior: leite com manga pode matar!

Digamos que ele iria correr esse risco, pois a manga estava suculenta, diferente das que sempre comprou no mercado.

Bernardo estava decidido a tão logo financiar uma moto off road porque seria o veiculo perfeito para percorrer as enormes extensões do canavial da usina onde trabalhava. E também serviria para percorrer todos os sítios do seu segundo emprego que na verdade era um “bico” que arrumou para auxiliar na renda. Logo em sua primeira semana descobriu que na cidade há uma cooperativa de incentivo aos pequenos produtores e que eles precisavam de um engenheiro para o trabalho.

 No dia anterior estava tão empolgado com a casa nova que até se esqueceu de contar sobre esse novo emprego para Carolina Beatriz.

 Apesar da excelente noite de sono, ainda assim estava sonolento. A semana tinha sido muito corrida e como era novato no emprego se prontificou a ficar horas a mais para ir pegando o jeito e entender melhor como tudo funcionava na usina.

 Pensou em tomar um café para auxiliar contra a canseira, mas viu que os grãos na cafeteira eram escassos:

 – Melhor deixar para a Carol. Ela é viciada em café!

 Escreveu “te amo” com pasta de dente no espelho do banheiro e isso o fez se lembrar dos tempos em que vivia em uma republica com os amigos. Eles sempre usavam creme dental para espalhar nos que dormiam e também para deixar mensagens de elogio às irmãs dos colegas no espelho.

 E hoje ele estava morando junto com a namorada. Sentiu orgulho do seu rápido crescimento pessoal e tinha certeza que longe do stress da cidade grande o seu crescimento espiritual acompanharia essa evolução rapidamente.

 Antes de sair parou na porta do quarto e observou sua amada dormir.

Sorriu.

Pegou as chaves do carro dela e tomou a estrada para o trabalho. Até mesmo o trabalho no sábado não tirou a alegria e satisfação de Bernardo.

 Enquanto subia pelas montanhas pensou que se a estrada fosse uma linha reta os vinte quilômetros que separam as duas cidades cairia pela metade. O nevoeiro na estrada o deixou alerta e encantado.

– Esse lugar é muito bonito!

 Bernardo estava feliz.

***

continua…

Reinaldo da Cunha Yado

A última página – Parte 1

atirando pedras no rio

Primeira Parte – Carolina Beatriz e Felipe

A campainha tocou.

 Carolina Beatriz abriu os olhos, mas a preguiça a impediu de se levantar. O dia é sábado e segundo os números luminosos do radio relógio do quarto ainda era muito, mas muito cedo . Virou para o outro lado e cochilou.

 Mais dois toques na campainha.

 Por quanto tempo cochilou? E o relógio mudou para o minuto seguinte. Por vezes detestava o seu sono leve que a fazia despertar com o menor dos barulhos e a campainha reverberando pelo corredor vazio mais parecia uma sirene de ataque aéreo. Sabia que não conseguiria mais dormir, mas ainda assim resolveu permanecer deitada – certamente é algum religioso ou um vendedor.

 E a sirene de ataque aéreo ressoou novamente.

 Sentou-se na beira da cama, mas permaneceu estática: se em um minuto ela não tocar mais eu volto a me deitar! ­– agora que seus olhos já se acostumaram com a pouca luz pode observar as caixas de papelão empilhadas pelo quarto. Esse fim de semana seria de trabalho na arrumação das coisas na casa nova, que um dia fora do seu avô. Até por isso pretendia dormir um pouco mais, pois sabia que trabalharia desempacotando e organizando caixas por todo o dia.

Mais três toques apressados na campainha e como ela fazia “dindon” na verdade foram seis toques.

 Desistiu de permanecer no quarto e devagar caminhou desviando das caixas espalhadas por toda a casa. Passou pela cozinha e apertou o botão da cafeteira que era um dos poucos eletrodomésticos fora da caixa e ligado na tomada. Carolina Beatriz sabia que esse seria apenas o primeiro de muitos cafés no dia e o barulho dos grãos sendo moídos foi encoberto pelo som da campainha.

 – Mas que diabo!

 Mudou-se para essa pequena casa com o namorado, nessa pacata cidade aos pés das montanhas justamente para ter sossego e logo no primeiro sábado é importunada por algum sem noção que desatou a disparar a campainha.

 Caminhou lentamente e cada vez mais se via desencorajada diante de todo o trabalho que teria em arrumar as coisas na casa nova. Espiou pelo olho mágico da porta e toda a preocupação que tinha com o trabalho desapareceu. Deu dois passos atrás imaginando o porquê da presença desse homem insistente à sua porta.

Passo a passo começou a voltar para o quarto evitando qualquer barulho. Os pés descalços ajudavam, mas um taco de madeira meio solto a desequilibrou fazendo barulho ao tropeçar.

 – Olá? – e o homem voltou a tocar a campainha mais duas vezes.

 Carolina Beatriz prendeu a respiração por um momento como se isso fosse ajuda-la a permanecer quieta, mas o homem bateu na porta e tornou a tocar novamente a já cansada campainha.

 – Eu ouvi você aí! – o misterioso homem tinha uma voz grossa e autoritária.

 – Eu já vou! Espere eu vestir algo mais adequado.

Saiu apressada de volta ao quarto e despejou o baseado e o restante da maconha na privada. Vestiu um roupão de banho apenas para esconder as pernas nuas e tatuadas. Vestia uma velha camiseta grande e larga do seu namorado que logo cedo pegou o carro (e a estrada) para trabalhar na cidade vizinha. Por sorte a xícara de café já estava pronta e acreditou que isso colocaria seus pensamentos em ordem.

 O lado bom de morar em uma cidade minúscula é que todos se conhecem, mas isso também pode ser a sua forca já que ao menor deslize todos saberão que se trata de você e rapidamente puxarão uma enorme lista de seus antecedentes desde as travessuras de infância, passando pela rebeldia adolescente até chegar agora: a adulta com costumes da cidade grande.

Era assim que se sentia quando todos a observavam quando comprava pão ou caminhava na beira do lago. Ela era quase uma aberração com suas tatuagens, piercings, cabelo colorido e roupas nada apropriadas para uma cidade interiorana.

 Acendeu um cigarro e tentou se acalmar. Tomou a xicara nas mãos e abriu a porta:

 – Felipe – soltou a fumaça do cigarro – Ou devo chama-lo de policial Felipe?

 Felipe aparentava um olhar pesaroso que o transformava num homem mais velho e cansado pela idade. Diante de toda a “maluquice” de Carolina Beatriz nem parecia que ambos possuíam vinte e poucos anos. E ele mesmo que nunca saiu da pequena cidade mal reconhecia a garota que estudou com ele praticamente em todas as turmas até ela se mudar para a capital.

 – Bom dia, Carolatriz. – era assim que sempre a chamou por brincadeira.

  O sorriso amarelo de Felipe e a brincadeira com o apelido de infância não foram suficientes. Carolina Beatriz sabia pelo semblante do velho amigo que ele não trazia boas novas. E Felipe sabia que a sua profissão um dia ou outro o colocaria numa situação difícil como esta.

O policial explicou o porquê de ele estar ali e logo se viu obrigado a conter Carolina Beatriz que se desesperava e gritava não acreditando no que acabara de ouvir.

 Carolina Beatriz começou a se lembrar de sua vida e tentou imaginar como ela seria daqui por diante.

 ***

 Talvez a infância seja a melhor fase para se morar em uma pequena cidade do interior. Quando criança você não se importa se a tua cidade possui muitos lugares para sair à noite e tampouco se preocupa se o salário do teu pai seria maior em uma metrópole. Você também não liga de passear em shopping e se preocupa menos ainda se terá algum delivery aberto às quatro da manhã.

 Você se preocupa apenas em brincar.

 E a liberdade aliada com a segurança de uma pequena cidade propicia isso.

 Carolina Beatriz, como a maioria das meninas do interior, sempre foi meio moleque. Brigava com os meninos na rua, andava descalça, ganhava um machucado novo todo dia e à noite se pintava de vermelho com o mercurocromo aplicado sobre os ferimentos.

 Ela tinha pavor de um dia namorar um menino. O único que ela gostava era Felipe e talvez ele fosse o único homem que um dia namoraria.

 Felipe era diferente dos outros meninos. Ele conversava com as meninas e não apenas atazanava puxando o cabelo, derrubando na terra ou xingando.

 Felipe sempre foi o mais alto da turma e por isso defendia as meninas e até mesmo os meninos mais fracos e não existia um só que resolvesse bater de frente com ele. Felipe sempre foi um policial, mesmo quando criança.

 Uma vez alguém disse que pra você ser feliz de verdade precisa morar perto de água, seja o mar, um rio ou um grande lago. E eles moravam a apenas alguns metros da represa da cidade.

 Também disseram que pra ser feliz você precisa visualizar um nascer ou por do sol de uma montanha ou se embrenhar na mata de vez em quando. E eles também tinham tudo isso.

 E por ultimo disseram que se você não possui cicatrizes não terá historia alguma pra contar. Bom, digamos que a infância de Felipe e Carolina Beatriz encheria um livro rapidamente.

Acho que todos os pais pausariam as nossas vidas ali e viveriam eternamente dessa forma, sem se preocupar com nada além da lição de casa do colégio.

Mas todos nós crescemos.

 Sempre que olho pra trás e me recordo de tudo o que vivi constato o quão era feliz e não sabia.  Os “problemas” eram fáceis de resolver e quando não, rapidamente eram esquecidos.

 A pequena escola da cidade não possuía classes de ensino médio e logo Felipe e Carolina Beatriz se viram obrigados a diariamente tomar um ônibus para estudar na cidade vizinha.

 A cidade nem era grande, mas os adolescentes já agiam como se fossem da capital e aliavam toda a revolta da idade com o que viam na TV imitando suas bandas de rock ou atores e astros que ganham mídia se revoltando contra tudo e todos.

 Como disse anteriormente, Felipe sempre fora um policial. E um policial honesto.

 Rapidamente ele soube separar as pessoas que almejavam algo na escola daqueles que queriam apenas “ficar loucos”.

 Carolina Beatriz não soube separar.

 E a meiga garota que gostava de pescar e andar descalça na pequena cidade logo começou a usar roupas rasgadas, beber e fumar.

 Ia pra escola, mas não entrava nas aulas preferindo ficar andando pela cidade com seus novos amigos. Felipe não gostava desses novos amigos.

 Todas às vezes ele esperava Carolina Beatriz para juntos caminharem algumas quadras até o ponto de ônibus que os levaria de volta para casa. Mas frequentemente ele esperava por ela em vão. Esperava até o ultimo momento, perdendo o ônibus muitas vezes.

 Num desses dias ele resolveu ir até a pracinha onde a garota e seus amigos ficavam matando aula e encontrou Carolina Beatriz vomitando e praticamente desmaiada de tanto beber vinho barato.

 Carolina Beatriz chorava.

 Era a primeira vez que sentia isso.

 Estava zonza. Tinha sede, mas não conseguia beber. Tinha fome, mas vomitava o que comia. Estava fedida, mas não teria como tomar banho ou sequer trocar de roupa. Estava acompanhada, mas estava sozinha.

 Estava sozinha porque sua amiga e os dois rapazes que mataram aula para beber estavam pouco se importando se ela estava passando mal. Estava jogada, deitada embaixo de uma árvore enquanto os três ouviam musica alta em um discman acoplado com dois pequenos altos falantes.

 Felipe a ajudou tirando a blusa suja da garota e colocando o seu moletom no lugar para aquecê-la. Carregou-a até a rodoviária, comprou um refrigerante para ela e pagou a passagem para os dois, já que haviam perdido o ônibus gratuito que os levaria pra casa.

 No dia seguinte Carolina Beatriz não foi à escola.

 E Felipe resolveu tirar a limpo a história do dia anterior. Procurou os dois rapazes que embebedaram a amiga e os ameaçou e como eles eram muito revoltados para serem intimidados por um “caipira” resolveram partir pra cima. Como já foi dito anteriormente, Felipe sempre foi um rapaz alto e o trabalho nas plantações do pai o deixou muito forte. E o seu senso de justiça, tal qual um policial, o fez dar uma surra nos dois.

 Carolina Beatriz foi ignorada pelos seus amigos beberrões depois disso. E ela não gostou nada de ter Felipe se intrometendo em sua vida estragando as suas amizades.

 Procurou-o pela pequena cidade e o achou à beira do grande lago atirando pedras na água para fazê-las quicar.

 – Você tá achando que é o meu pai para escolher quem deve ser meu amigo ou não? – a garota furiosa bateu com seu dedo indicador no peito de Felipe.

 – Eu nunca gostei daqueles seus amigos mesmo. E eles faziam mal pra você, Carolatriz!

 – Não interessa! Eles eram meus amigos!

 – Grandes amigos! Se dependesse deles você teria dormido na praça como uma mendiga!

– E daí? A vida é minha!

 O rapaz apenas baixou a cabeça e engoliu amargo para não discutir mais ainda. Pensou que receberia um agradecimento pelo que fez, mas ao contrário recebeu apenas uma patada.

 A garota tornou a atacar:

 – E a vida é tão minha que eu irei riscá-lo dela! – e apenas virou as costas caminhando apressadamente.

 Felipe tornou a atirar pedras no lago enquanto observava a amiga furiosa se afastar lentamente. E nesse dia aprendeu que nós não temos controle de quase nada na vida. Você pode se preparar esperando dezenas de desfechos, mas sempre haverá um que o pegará totalmente desprevenido e sem saber o que fazer.

 Felipe começou a entender que você pode fazer algo com a melhor das intenções e ainda assim o outro lado pode entender tudo de uma perspectiva diferente.

 E o mais importante de tudo: ele aprendeu que o que você acha certo não é o certo simplesmente porque as pessoas são diferentes.

 Basta entender isso para conviver melhor com cada uma delas.

 E nesse dia Carolina Beatriz foi até um ponto escondido do lago e sentou-se embaixo das velhas árvores. Tirou os sapatos, dobrou a saia e apenas molhou os pés dentro d’água. Também molhou o seu rosto com as lágrimas derramadas.

 Carolina Beatriz era uma garota muito orgulhosa e para manter a sua palavra não mais conversou com Felipe. Eles se viam todos os dias no ônibus ou na pequena cidade, mas não mais conversavam.

 E até mesmo quando a sua raiva diminui, seu orgulho não a fez pedir desculpas. E ainda parecia sentir certo prazer em esnobá-lo nas vezes que ele a procurava para conversar.

 A adolescência é uma idade complicada. E o pior é que quase sempre ela se estende até os vinte e poucos anos, pois a maioria das pessoas que conheço nessa idade ainda fazem coisas que apenas seriam justificáveis se elas tivessem oito ou até dez anos a menos.

 Com os meses eles voltaram a conversar, mas apenas o necessário.

 Sabe, se você tem um bule de café e um dia derrubá-lo ele irá se quebrar. E você pode juntar todas as partes quebradas e colar perfeitamente para continuar a usá-lo da mesma forma de sempre. Ele é o mesmo bule, mas as marcas da rachadura estarão lá.

 O gosto do café será o mesmo, mas bastará um olhar mais profundo para perceber que o bule traz as cicatrizes de uma queda.

Carolina Beatriz acreditava que a sua amizade com Felipe até poderia voltar a ser o que era, mas que vira e mexe ela perceberia as cicatrizes das brigas.

 O episódio do vinho barato foi apenas mais uma de suas brigas com Felipe. Analisando de fora pode parecer que a menina deu uma de louca surtando quando na verdade deveria agradecer ao amigo por afastá-la das más companhias.

 Mas não.

 Ela se sentia por vezes sufocada por Felipe que teimava em sempre querer dizer o que é certo ou errado para ela. E ela não queria e não conseguiria ser a garota perfeita que Felipe teimava em tentar transformá-la.

 Carolina Beatriz queria sim cair e se despedaçar, mas juntaria todas as suas partes e aprenderia com essa queda. Ela queria errar, para assim aprender o que é certo.

 A adolescência serviu para mostrar que ela e Felipe eram muito diferentes. E que o encanto que nutriam permaneceu intacto na infância.

  Ele era acomodado e queria viver para sempre na pequena cidade. Ela gostaria de rodar o mundo (ou pelo menos o país). Ele já sabia qual seria a sua profissão desde os oito anos de idade. Ela ainda não tinha a menor ideia do que faria ou qual seria a sua aptidão.

 Felipe e Carolina Beatriz trilhariam caminhos diferentes.

 E a idade adulta chegou para mostrar isso e a distância das cidades em que viviam não era maior que a distância de ideias, ambições e metas para a vida.

***

 Finalmente o policial Felipe conseguiu acalmar Carolina Beatriz que agora parecia não ter mais forças para reagir. Ela tinha cortado o pé na caneca de café que derrubou ao chão e não sangrou muito, até parecendo que seu corpo estivesse ocupado produzindo as lágrimas que derramou.

 Ela desejou um baseado para acalmar e se arrependeu de ter jogado tudo pela descarga da privada. Porque diabos ela achou que Felipe viera até aqui para prendê-la por causa de um punhadinho de maconha?

 Finalmente ela e o seu namorado Bernardo iriam dividir o mesmo teto e iniciariam uma nova etapa na vida.

 Não mais.

O policial Felipe veio informar que o carro cuja documentação estava no nome de Carolina Beatriz sofreu um terrível acidente nas montanhas e o seu ocupante veio a falecer.

 Carolina Beatriz perdera o seu grande amor.

Carolina Beatriz perdera o norte.

 ***

continua…

Reinaldo da Cunha Yado

Águia ferida

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 O dia é 11 de janeiro de 1981.

 Hoje é tão fácil saber a data.

 E eu também sei o que irei almoçar e jantar ou o que farei no restante desse domingo. Pelo menos na teoria você imagina isso tudo e somente um deslize ou imprevisto fará algo mudar.

 Mas nem sempre foi assim.

 Chamo-me Robert James e tenho apenas 32 anos, mas pareço ser mais velho muito por culpa da perna esquerda que me impede de caminhar como uma pessoa normal. As cicatrizes e lembranças me transformaram num homem rude e frio que mal se preocupa com a aparência mantendo longos cabelos e uma barba que dia após dia se torna um pouco mais grisalha. Posso dizer que já vi algumas atrocidades que não me fazem querer ser simpático com qualquer um. Também vivi situações que me atormentam todas as noites e são raríssimas as vezes que durmo sem acordar suando frio. Escassos são os dias que consigo me acalmar e viver despreocupadamente sem achar que há um inimigo me espreitando.

 Mas ao menos hoje rumo para um lugar que foi batizado em minha homenagem.

O dia está frio e eu caminho lentamente em direção ao Estádio dos Veteranos, casa do Philadelphia Eagles que enfrentará o time do Dallas Cowboys pelo título da NFC. Sempre que pensamos em veteranos imaginamos algum velhinho que serviu em uma das duas grandes guerras, mas eu também sou um veterano, pois fui ferido em batalha.

 Em uma rua próxima eu vejo um bueiro destampado e rapidamente tento acelerar o passo imaginando que algum vietcong possa sair atirando desse buraco. Eu vivo alerta sempre!

 Com alguma dificuldade subo as escadas do estádio e sento no meu lugar para acompanhar a partida que ainda demorará a se iniciar. Compro um hot dog, bebo uma cerveja e penso no quanto isso significa liberdade. Uma cerveja com os amigos no fim do dia é algo maravilhoso e nos faz sentir vivos! Não entendo porque a minha esposa não consegue aceitar isso.

 Bem, agora nem sei se é que ela ainda é a minha esposa e talvez o excesso de cervejas no fim do dia me fez perder até mesmo alguns amigos…

Mas o que importa é que aqui no estádio todo fã dos Eagles é meu amigo.

 Dobro o lado esquerdo da calça porque o ar frio estranhamente faz a minha dor diminuir. Estico a perna até encostar na cadeira da frente e não ligo se os outros olham de forma estranha para a cicatriz porque eu ganhei isso lutando pelo meu país.

 Ao observar algo sobrevoando o estádio abaixo a cabeça e a coloco entre as pernas tapando os ouvidos. “É apenas um avião, somente um avião! Não há bombas nele!”

Fogos de artifício explodem acompanhando a entrada do time mandante e eu fecho os olhos temendo abri-los e ver pessoas mortas ao meu redor. Se você se preocupa com o teu animal de estimação que foge nas comemorações, preocupe-se com todos aqueles que lutaram pelo seu país e constantemente se recordam de momentos esquecidos ao ouvir um simples rojão.

 Começa o jogo e logo no primeiro quarto o running back Wilbert Montgomery corre 42 jardas para anotar um touchdown para o Eagles. Todos se levantam pra comemorar, mas eu fico sentado. O técnico Dick Vermeil estica o braço direito para a arquibancada exatamente para o lado onde eu me encontro e dá até a impressão que ele aponta exatamente pra mim: um veterano no estádio dos veteranos!

 – Que corrida linda! Cowboys não conseguem laçar a águia! – aos berros um jovem torcedor comemora provocando um grupo de torcedores de Dallas.

 A empolgação foi tanta que ele até derrubou cerveja em Robert James que permaneceu sentado.

 – Perdão, senhor!

– Não tem problema, rapaz! Fly Eagles Fly!

O jovem observou a cicatriz e talvez por pena resolveu pegar uma cerveja extra para o veterano:

– Aceite, senhor! Por favor! Vamos comemorar a vitória e a nossa ida ao Superbowl!

 No segundo quarto os Cowboys empataram e com o jogo em 7 a 7 as equipes foram para o vestiário.

 – Desculpe se estou me intrometendo… mas essa tua cicatriz é de nascença?

 – Pode se dizer que sim. – e deu uma golada na cerveja, derrubando um pouco na barba – Digamos que eu nasci de novo quando a ganhei.

 – Meu nome é Ethan.

 – Robert James.

 – Você é um veterano de guerra? – certamente a bota, a calça camuflada e alguns patches de infantaria costurados na surrada jaqueta do Eagles entregaram Robert James.

– Vietnã, 1968.

 – Obrigado por lutar por nós. Eu tinha apenas oito anos de idade, mas me recordo da comoção que houve em todo o país.

Robert James simpatizou com o jovem de cabelos claros que insistiam em escapar pelo boné com o símbolo das águias. Isso era raro de se acontecer, mas acreditava que a gratidão era algo que merecia respeito: “Seja rude, mas não ingrato”, era a frase que a sua mãe sempre dizia. Rude era o teu pai, que sempre acreditou que os filhos deveriam ser castigados e que a esposa deveria ficar em casa, criar os filhos e servir ao marido. Os tempos eram outros.

 – Você gosta de histórias de guerra, Ethan?

– Sim! Meu tio sempre me contava. Ele também lutou no Vietnã!

 – Vou pegar mais umas cervejas com o próximo vendedor e contarei a minha história:

 O dia amanheceu quente, como todos os outros. Minha farda sempre estava molhada de suor ou encharcada pela chuva. Eu era apenas um garoto. Não queria estar ali e nem sabia por que diabos lutava. Falavam de Vietnã, mas outros diziam ser Indochina e eu realmente acreditava se tratar de dois lugares diferentes.

 O que eu sei é que estávamos lá porque a França não tinha mais a sua colônia e entre mortos e reféns perdeu quase 20 mil homens na derrocada da fortaleza de Dien Bien Phu. Mais estranho do que a guerra é o fato de eu me recordar de todos os nomes de uma língua que eu nada entendia.

 Ho Chi Minh.

 Esse era o nome do comandante vietnamita que expulsou franceses, japoneses e até mesmo nós americanos do seu país. Um comandante que usou de todas as técnicas de guerrilhas como tuneis, armadilhas, fossos e ataque surpresa.

 Ele era um gênio, verdade seja dita. E o mais engraçado é que ele estudou na França, o primeiro país a ser expulso da outrora colônia.

 Field Goal Eagles! Tony Franklin com um chute de 26 jardas coloca o time da Philadelphia na frente novamente: 10 a 7.

 – Continue a história, Robert James. – o jovem Ethan era torcedor fanático dos Eagles, mas também adorava as histórias do Vietnã e ele sentiu que o veterano se orgulhava de contar o que viveu. Assim ele assistia ao jogo e também ouvia a história.

E o veterano se transformava em um herói quando relembrava seus dias de combatente que até se esquecia dos seus traumas assim conseguindo ser uma pessoa mais simpática nesses momentos.

 Robert James ficou aqui na Philadelphia. Lá o meu nome era Mclaughlin. Apenas um soldado perdido como a enorme maioria que lá se encontrava.

 Logo nos primeiros dias me tornei um assassino.

Eu matei.

Até então no máximo havia tirado a vida de um peixe em meu país, mas no Vietnã eu era um assassino.

 Achei-me no direito de ser Deus e interrompi a vida de um homem sem ao menos saber se ele era um pecador. Não sabia o seu nome e não imaginava se tinha filhos pra criar ou uma mãe que toda noite rezava pedindo proteção a ele.

 Chorei como uma criança nessa noite, mas não deixei o sargento ver. Chovia tanto que a água esconderia as minhas lágrimas e o barulho das gotas pingando nos capacetes silenciariam os meus soluços.

 Tornei-me aquilo que sempre abominei. Quantas vezes você já se perguntou se é igual aos que tanto odeia?

 Virei um soldado recluso. Cumpria as ordens, marchava e fazia os meus plantões, mas não faria amizades no pelotão. Mamãe sempre me disse para ter amizade com pessoas melhores que eu e ali eram todos assassinos!

 Uns ainda piores, pois sentiam prazer nisso tudo. Atiravam em crianças, estupravam mulheres e queimavam vilas de simples agricultores e pescadores. Que honra há nisso tudo?

 Eu sou um covarde.

 Devia ter me rebelado contra isso tudo nem que custasse a minha vida. – e nesse momento o veterano deixou algumas lágrimas rolarem pela face. Algumas feridas jamais se curam e o arrependimento é a maior das chagas.

 Mas acredite nem tudo era espinho. Existiam boas pessoas no meio de nós.

 Todo dia eu via soldados dividindo suas rações com pobres vietnamitas famintos. Outros ajudavam a reerguer algumas casas enquanto alguns chutavam algo parecido com uma bola para entreter as crianças. Crianças essas que não viam diferença alguma entre nós e os nativos que fosse além da nossa farda verde camuflada dos trapos que vestiam. Talvez a única diferença fosse o olho puxado, mas as crianças são inocentes e dificilmente veem maldade em tudo como nós vemos.

 De todos os soldados um que chamava a atenção das crianças e de nós mesmos era o Smithson. Péssimo atirador, fraco e preguiçoso, mas ainda assim não existia uma só pessoa que não gostasse dele.

 Imitava os sargentos e oficiais arrancando gargalhadas dos soldados e o seu jeito engraçado de dançar cativava até mesmo os vietnamitas que nos viam (com razão) como inimigos. Creio que Smithson nos fez esquecer onde estávamos com suas histórias engraçadas. E até hoje acho que ele encarou toda a guerra como uma grande diversão, como se tudo aquilo não fosse real, como se as pessoas não morressem de verdade e que uma hora tudo terminaria quando um dos dois lados pedisse figas ou encerrasse o jogo.

 Smithson.

 Ele só queria voltar para a sua pequena cidade no Missouri e quem sabe comprar um pequeno barco para morar nele. Poderia arrumar um emprego qualquer desde que no fim de tarde pudesse velejar em Lake St Louis. Além do que bastaria alguns quilômetros ao sul para chegar ao Rio Missouri ou alguns a leste para chegar ao Rio Mississipi.

 – Você já esteve na junção do Rio Missouri com o Mississipi, Mclaughlin? – o empolgado Smithson perguntou e antes mesmo da resposta já continuou a falar – É lindo ali! E fica pertinho da casa dos meus pais! Sempre levávamos as garotas ali sob a desculpa de ver o por do sol. Sempre dava certo!

 E suspirou, saudoso de uma época que a cada dia se tornava anos mais distante.

 – Cara, eu poderia viver ali pra sempre. Arrumaria um emprego de garçom ou ainda consertaria barcos, sabe. Eu poderia aprender, cara! Não deve ser mais difícil do que usar esse fuzil! Se bem que eu também não sei usar o fuzil direito.

 Mclaughlin apenas riu.

 – Você é um bom homem, Mclaughlin. Posso ver isso nos seus olhos”.

 – Não acredito nos meus olhos! – bradou um fervoroso torcedor dos Eagles trazendo Robert James e Ethan para o Estádio dos Veteranos novamente.

 Com uma corrida de 9 jardas Leroy Harris pontuou aumentando a vantagem dos Eagles. Com o chute de ponto extra agora o jogo está 17 a 7.

 – Mais um quarto de jogo e venceremos a NFC. Rumo ao Superbowl! – o entusiasmado Ethan trouxe mais duas cervejas e dois hot dogs.

 – A final será em Louisiana. Provavelmente contra o Oakland Raiders.

 – Vamos ao jogo, Robert James? Ou prefere ser chamado de Mclaughlin?

 – Haha. Tanto faz, garoto. Mas não consigo ir ao jogo. São quase 1300 milhas até Louisiana! Minhas pernas não aguentam!

 – A pé eu também não aguento! – e riu.

 Aquele dia amanheceu estranho. Eu podia sentir isso no ar e pode me chamar de louco, mas a energia do lugar me dizia isso.

 Marchávamos em um lugar que julgávamos seguro, logo, despreocupadamente. E também porque no dia do ano novo do calendário lunar os vietnamitas faziam uma trégua. Nós não esperávamos um ataque.

 70 mil homens de Ho Chi Minh, sob o comando do general Vo Nguyen Giap atacaram muitas cidades inimigas inclusive a Embaixada Americana na capital Saigon.

 – Espere! Cidades inimigas? Mas a Guerra não foi no Vietnã”? – Ethan ficou confuso enquanto mordia o seu lanche.

 – Sim! Mas o país se dividiu entre o sul capitalista e o norte socialista. Vivíamos a Guerra Fria.

 Smithson dançava com seu fuzil quando o sargento não estava de olho. Não sabíamos se era mais engraçada a sua dança desengonçada ou os trejeitos quando tentava retomar a postura séria diante dos olhos dos comandantes.

 Mas então ele caiu.

 E dessa vez não fazia parte das suas encenações que entretia a todos. E de repente eu me vi pulando ao chão enquanto alguns de meus companheiros eram jogados por balas, caindo agonizantes. Nos segundos seguintes eu não soube o que fazer, pois só ouvia explosões, tiros e gritos de dor pavorosos.

 Smithson caído me encarava sem piscar. Seus olhos não brilhavam mais do jeito que reluziam quando falava de Lake St Louis. Esses olhos não mais veriam o pôr do sol na junção dos rios Missouri e Mississipi da mesma forma que as mãos que tremiam por alguma reação neurológica jamais aprenderiam a manusear alguma ferramenta para consertar barcos.

 Apesar de todo medo em mim comecei a atirar. Descarreguei o meu rifle contra uma moita que se mexia e nem sabia se dali sairia um vietcong, um animal ou um americano. Poderia ser o vento que fazia a moita se mexer, mas ainda assim atirei sem parar.

 Foi quando todos se levantaram e começaram a fugir. Eu pude ver algumas granadas voando em nossa direção, mas ainda tinha medo de me levantar porque tiros corriam para todos os lados!

 E uma das granadas explodiu.

 E eu não escutei mais nada.

 Vi o sargento gritando e me arrastando para fora da estrada, mas não senti absolutamente nada.

 O médico espetou morfina em minha perna e logo não senti dor alguma. Estava grogue e entorpecido pela droga e além de não ouvir agora eram os meus olhos que não enxergavam mais. A visão se tornava turva e manter as pálpebras abertas era um tremendo exercício de força.

 E foi então que pude ver o sol refletido nas águas do Missouri e Mississipi. Aquele soldado brincalhão me deu uma cerveja e de dentro de seu pequeno barco ríamos e nos sentíamos mais vivos e felizes do que nunca. Podia sentir até mesmo a umidade no ar e o cheiro da mata ao redor e o melhor de tudo é que no pequeno cais algumas mulheres acenavam para nós:

– Vamos buscá-las, Mclaughlin! Eu lhe disse que a história de ver o por do sol sempre dá certo!

Eu adorava esse cara! Mas não me recordo do seu nome!

– Minha mãe preparou uns lanches para nós e temos um monte de cervejas! Será uma bela noite, meu amigo! – e o sorridente soldado manejava o pequeno barco em direção ao cais.

Então acordei.

A noite não era bela e eu estava em uma cama e não em um barco.

– Onde estou?

– Você está em uma base médica e tem muita sorte de estar vivo. Alguém lá em cima deve gostar de você! – respondeu uma enfermeira que cuidava dos curativos do homem da cama ao lado.

Devo ter apagado por alguns dias, mas ainda assim meu corpo doía e estava cansado. Por que não lembro o nome do meu amigo? Ao menos sei de onde ele é…

 – Alguém de Lake St Louis aqui, enfermeira?

 – Acho que é mais fácil você perguntar pelo nome – e procurou o nome na prancheta dos remédios sobre a cama – Soldado Mclaughlin.

 Mclaughlin  se esforçou, mas ainda não se lembrava do nome do homem que caíra pouco antes dele. Como poderia ter se esquecido do nome daquela figura impagável? Quis fechar os olhos para novamente navegar ao lado do amigo.

 – Um cigarro, enfermeira! Por favor!

 – Aqui você não pode fumar, Mclaughlin de St Louis.

 Eu sou de St Louis? Por isso que sonhei com os rios Mississipi e Missouri?

 Não me lembro de nada! E porque essa enfermeira de cabelos vermelhos é tão seca comigo? Ouvi histórias de que todos sempre se apaixonavam pelas enfermeiras porque elas eram angelicais.

 – Espere um minuto! Vamos chutar um field goal agora, Robert James!

 Novamente Tony Franklin pontuou num chute de 20 jardas. Com 20 a 7, os Eagles eram os campeões da conferência e iriam ao Super Bowl XV!

Robert James Mclaughlin se levantou ajudado por Ethan e unidos com todo o estádio vibraram com o título! A Philadelphia estava orgulhosa no dia de hoje e essa vitória sobre os rivais seria celebrada por toda a noite.

 Aos poucos o Estádio dos Veteranos se esvaziou, mas Ethan permaneceu para ouvir o final da história:

 – Doutor, me arrume um cigarro!

 – Mclaughlin, certo? Você pede cigarros para as enfermeiras todos os dias desde que acordou!

 O soldado ferido estava cansado de ficar ali.

Não estava no melhor da sua saúde, mas ainda assim estava forte o suficiente para retrucar num tom agressivo:

 – Eu vi amigos morrerem e estou abandonando outros no combate porque sou incapaz de andar sem uma muleta! Faça-me um favor e me dê a droga do cigarro!

 O doutor não soube o que dizer. E na verdade achava que Mclaughlin tinha razão.

 – Quer saber? Vou dar alta pra ti porque você já está bom, soldado. Tome o cigarro, mas vá fumar lá fora. – e o doutor saiu apressado porque mais feridos de guerra chegavam ao outro pavilhão.

 Uma cerveja com os amigos no fim do dia é um sinal de liberdade portanto aprecie isto enquanto pode. Mas um cigarro em lembrança de um amigo que se foi também pode ter o mesmo significado.

 Hoje estou livre pra voltar para a minha casa. Cheguei inteiro e com medo, saio inválido e traumatizado, mas ao menos agora estou livre.

Smithson.

Esse era o nome do meu amigo brincalhão nascido em Lake St Louis.

 Hoje acredito que ele está livre e no lugar que estiver está fazendo as pessoas sorrir. Ou talvez esteja velejando ao lado de garotas vendo um por do sol infinito igualzinho ao sonho que tive. Velejando no barco que jamais entra água porque ele aprendeu o oficio de consertá-lo. Ou quem sabe seja um garçom servindo algumas cervejas para as mesmas garotas que assistem ao por do sol.

 Acendeu o cigarro e caminhou pelo estreito corredor tomando cuidado para a muleta não enroscar no pé das camas dos enfermos.

O estádio dos veteranos já estava quase vazio e Robert James abriu a mochila para de lá retirar dois charutos. A confiança na vitória era tamanha que ele planejava fumar os dois após o jogo, mas não fora egoísta e entregou um ao jovem Ethan:

 – Me lembro como se fosse hoje que o melhor cigarro da minha vida foi aquele que acendi no meu último dia como soldado no Vietnã. – e deu uma baforada exalando o forte cheiro do fumo – O cigarro foi em homenagem ao falecido Smithson e em comemoração pela minha volta pra casa.

Ethan tossiu com a espessa fumaça e respondeu:

 – E hoje fumamos comemorando a nossa ida ao Superbowl XV. E em homenagem aos Eagles!

 E apenas sorriram despreocupados porque a felicidade e as boas lembranças permanecem para sempre na memória.

 – Mclaughlin! Já te disse pra não fumar aqui! Só porque você teve alta acha que pode infringir as regras? Em St Louis vocês fumam dentro de um hospital? – indagou a irritada enfermeira de cabelos vermelhos.

 – Eu não sou de St Louis, senhorita. – E soltou fumaça no ar como se fosse a locomotiva de um trem. – Eu sou da Philadelphia!

Reinaldo da Cunha Yado